A Visita à Wait, no Museu Coleção Berardo

Tempo… O tempo passa, o tempo impõe-se, o tempo vem sem ser chamado, passa sem ser apreciado. Esperamos pelo tempo de algo, choramos sobre o tempo que foi. Esperamos que volte, que dê a volta e ao mesmo tempo que fuja sem deixar rasto. Desta vez, o Museu Berardo desafia-nos a refletir sobre as perspetivas de espera que existem na nossa vida.

Samuel Beckett é o ponto de partida da exposição, a ação em questão é o esperar. O esperar ansioso, o esperar logístico, o esperar como constante inegável presente durante toda a vida. A obra de Samuel Beckett apresenta um conjunto de condicionantes que representam e dominam a vida, sendo a espera uma das ações predominantes ligada à expectativa, à repetição, ao controlo e, claro, à frustração.

“Quanto mais conscientes da passagem do tempo num momento de espera prolongada estamos, mais nos confrontamos com um cansaço prematuro que culminará num estado de exaustão.” (1)

Toda a exposição está envolvida num tom cénico, o escuro e falta de janelas da cave que visitamos é usado como pretexto para iluminar as obras de forma quase teatral – dramática, emocional. Ao longo do percurso vamos sendo cada vez mais envolvidos neste feeling e na consciência da perceção das variáveis da espera e do tempo.

“As obras apontam-nos várias pistas temáticas, como o desejo, a tensão entre corpo e espaço, a fotografia e a morte, a memória, o confronto com o impossível e a vida em suspenso.” (1)

orlando franco | obra de dalila gonçalves

O curador e artista presente, Orlando Franco, mostra-nos as peculiaridades dos Pontos de fuga de Dalila Gonçalves.

Abre-se a exposição com João Ferro Martins, isto para quem ironicamente não reparou na espera de Sara & Andrécuja obra reflete o seu incómodo de falta de visibilidade no mundo artístico. As peças – as flores – representam uma série de bouquets que foram entregues aos curadores nomeados para várias bienais pelo mundo fora. Até agora ainda continuam à espera de serem vistos por estes curadores.

 

Entretanto há que ter atenção para não pisar a escultura de João Ferro Martins, exige o artista que a peça seja colocada num sítio onde esteja esquecida, sem plinto. A cassete em bronze representa a gravação mecânica vs a repetição natural humana, por outras palavras, a repetição, por exemplo, num filme ou no teatro. Esta peça faz complô com uma outra: uma máquina fotográfica também em bronze. Estas representam a invenção da imagem técnica como objetos simbólicos da sociedade. A partir do momento em que estas surgem, tudo muda, existe uma grande ruptura de envolvência humana, pelo menos nos mesmos moldes que anteriormente. Estes objetos passam agora a ser monumentos (e por isso feitos em bronze).

 

No canto de costas para nós está uma criança que parece de castigo. Na realidade é Pedro Cabral Santo que nos traz o Pinóquio Doente. Esta obra representa a dificuldade na percepção entre verdade e mentira na sociedade contemporânea. O Pinóquio está doente porque ao estar de nariz escondido não conseguimos perceber se está a mentir. O artista considera que o mesmo se aplica à sociedade, cada vez mais, é difícil de perceber onde está a mentira.

pedro cabral santo | pinóquio está doente | 2017 fibra de vidro

Pedro Cabral Santo |O Pinóquio está Doente | 2017 | Fibra de Vidro

Ainda na mesma linha de pensamento (e não é por acaso que estão na mesma sala), temos as obras de Luísa Jacinto que sobre as telas expõe o conceito de informação sobreposta ao conhecimento. Como se divide e distingue estes dois conceitos numa sociedade que os confunde ou, até, ignora a sua diferença.

 

À medida que mudamos de sala somos acompanhados por uma ilusão de ótica de Gonçalo Barreiros. A escultura de ferro que de longe (e até chegarmos bem perto) parece uma pintura traduz-se na ideia duma carta interrompida escrita a alguém. Comunicação vandalizada e corrompida. A linguagem como elemento essencial da passagem do tempo. Um pouco mais a frente, a obra do artista é completada pelo disco de vinil a tocar numa situação de errática repetição, que puxa o disco até ao seu próprio limite, o tema aqui é a exaustão.

gonçalo barreiros | sem título 2016 | ferro pintado

Gonçalo Barreiros | Sem título 2016 | Ferro Pintado

 

A limpeza do vácuo apresenta mais um momento de ironia, dos vários espalhados pela exposição. António Olaio é um artista com um percurso que sempre nos remete para a lógica entre o possível e impossível, com bom humor e alguma ironia à mistura.

 

De Dalila Gonçalves encontramos também duas obras vindas de uma artista conhecida por gostar de experimentar com diferentes tipos de materiais. Na primeira obra há uma serie de representações figurativas de personalidades. A segunda obra mostra-nos os limites do hemisfério dum globo terrestre em perpétuo movimento, por outras palavras (algo rebuscadas, reconheço), representa a tomada de consciência de dentro para fora (da terra para o universo) e de fora para dentro (no contexto da exploração espacial).

 

A representar a tensão da espera estão as esculturas de Susana Anágua. Um jogo de pesos, uma batalha de ímans, de tensões e equilíbrios e ainda a máquina do mundo de Drummond de Andrade. 

 

Sempre de mãos dadas com a reflexão do tempo, está a reflexão da própria morte. É neste campo que entram as obras de Rodrigo Tavarela Peixoto e Andres Serrano (que dá a capa à exposição). O Corvo e a Morgue, respetivamente. Em qualquer fotografia existe vida e morte, a própria história da fotografia passa pela imortalização daqueles que já não cá estão, pelo menos fisicamente. A imagem do corvo finta-nos de longe no corredor, um mau presságio que já está morto e conservado pela própria fotografia, que o congela no tempo sem perder o seu lado vivido e presente. Por outro lado, Andres Serrano traz a representação da figura morta e também uma reflexão, um desafio até: a tensão entre a atração e repulsa, o problema universal entre o horrível e o belo, ambos a reclamar o seu direito entre nós.

rodrigo tavarela peixoto | crow 2013 1

Rodrigo Tavarela Peixoto | Crow 2013 1

andres serrano | the morgue (rat poison suicide ii) (infectious pneumonia) 1992

Andres Serrano | The Morgue (Rat Poison Suicide II) (Infectious Pneumonia) 1992

Uma outra perspetiva de espera é nos dada por João Pombeiro. Um artista que trabalha fora das fronteiras tradicionais associadas ao museu e ao espaço da galeria, apresenta aqui a ideia de fé e desejo como potenciais motores para atingir algo.

O ferrari vermelho estacionado, pelo artista Paulo Mendes, quer abrir a discussão sobre a ilusão de poder. Numa batalha entre a crença e descrença pela própria instalação, esta leva-nos para trás e para a frente, a obra representa aqui a memória coletiva da juventude dos anos 90 e seus desejos.

paulo mendes | red power (ftr) 2006

Paulo Mendes | Red Power (FTR) | 2006

Humam Flag e Cubo Mágico, de Orlando Franco, vêm aqui representar também a linha do desejo pela ilusão (ou não) de poder. O curador e também artista, escolhe aqui duas peças, uma quase sem movimento, outra com 6 écrans de movimento incessante. Ambas as obras são uma ode à paciência e conquista de objetivos, o controlo sobre algo que quase parece impossível e que ao mesmo tempo, para ser executado, precisa de seguir passos e técnicas matemáticas. Isto quer dizer que, ao mesmo tempo que exploramos e fazemos por incutir a nossa individualidade, essa mesma situação, como as camisolas da adolescente encarregue do cubo mágico, já tem uma predefinição entabulada nas estruturas contemporâneas que nela se intrometem.

orlando franco | human flag 2018

Orlando Franco | Human Flag 2018

orlando franco | cubo mágico 2017 3

Orlando Franco | Cubo Mágico 2017


Por fim, como é já tradição, com uma boa exposição também vem o seu catálogo, mas preparem-se porque este é um catálogo diferente. Para além das habituais imagens do que se passa na exposição, o curador preparou, em conjunto com os próprios artistas, uma serie de questões que estes teriam de responder, como forma de se darem a conhecer a si, às suas filosofias e às suas obras. Considero este um sinal dos tempos, em que o catálogo se torna mais do que uma lembrança, mas uma partilha entre os artistas, o curador e o público.

Todas estas obras, catálogo e ideias vão culminar no objetivo deste tipo de exposições e curadorias, a reflexão sobre algo inegável à condição humana, neste caso: o tempo e a espera nos limites da linguagem e, por consequência, os seus efeitos na arte.

A exposição Wait está patente, no Museu Coleção Berardo, até 14 de abril de 2019.


(1) Lê-se na folha de sala

O Estado da Arte aproveita ainda para agradecer à equipa do museu e ao curador pela visita explicativa e disponibilidade – tanto na visita, como na partilha e carinho pela arte.

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