Bordalo II, o artista que desconstrói o consumismo

Confiante, simples e direto. É esta a sensação com que se fica ao conhecer o trabalho de Bordalo II: encaixado nos artistas ativistas que criam como forma de expressão e como forma de libertar toda a sua frustração sobre a ação humana. Mas o artista tem um truque, e esse truque faz com que não seja possível passar despercebido mesmo a quem não procura por obras de arte.

Claro que isto de ser simples pode querer dizer muita coisa, é simples na mensagem que quer passar, mas complexo na forma de o fazer. Neste momento são os animais em grande escala que andam a dar que falar na sua carreira, mas estes não são uns animais quaisquer. O que de longe (bem longe, porque não brinca quando se fala em grande escala) se mostra como um guaxinim ou um gorila, de perto é uma ode à sensibilidade (ou falta dela) humana e também um verdadeiro aterro sanitário.

Conhecem o ditado “O lixo de um é o tesouro de outro”? pois bem, neste caso eu diria mais consumismo de uns, lixo de outros, arte de Bordalo II (se rimasse era mais giro, eu sei).

“Eu crio, recrio, reúno e desenvolvo ideias com materiais em fim de vida e procuro relacioná-lo à sustentabilidade, consciência ecológica e social.” – Bordalo II

O método não é novo, já existe um bom movimento de artistas que dedicam o seu trabalho às causas ambientais e sensibilização pelo planeta. Bordalo II, pretende que o público tome consciência das consequências do consumismo desenfreado de que fazemos parte. Tudo funciona por fases: primeiro há que perceber que as coisas que compramos, usamos e deitamos fora têm de ir parar a algum lado, não se desvanecem em purpurinas depois de entrar no contentor da nossa rua (a não ser que seja um da reciclagem, e mesmo assim…). Bordalo II é um dos muitos artistas que querem que mais gente ganhe consciência do resultado das suas ações. O lixo está a crescer sem sinais de abrandar, e por mais que se consiga aproveitar uma parte, outra grande parte fica à espera de uma decomposição que pode levar centenas (ou mais) de anos. Este lixo tem de ficar sempre no quintal de alguém, e não está longe de chegar ao nosso.

É neste sentido que nasce um dos últimos e mais extensos projetos do artista – Big Trash Animals. Por norma estão representados animais em vias de extinção, todos eles são feitos de lixo que o artista e a sua equipa recolhem pelo mundo fora em aterros e similares, onde quer que seja que vá ser instalada a obra. As instalações em si podem surgir nos sítios mais insólitos – tendo em conta que nem sempre são encomendadas -,

algumas paredes e cantos de bairros ganham um acrescento de valor, uma recuperação estética.

“O facto das coisas serem feitas à margem da lei dá-nos muito mais liberdade de expressão.” Ver vídeo aqui

A magia das obras de Bordalo vai crescendo à medida que nos aproximamos: primeiro somos maravilhados com o detalhe, mesmo sendo em grande escala, depois começamos a perceber que todo o detalhe é feito de vassouras, pneus, mangueiras, para-choques, plásticos, etc., um sem fim de pedaços de lixo, coisas comuns do nosso dia-a-dia, coisas que já não precisamos, coisas que, muitas delas poderiam ter sido reutilizadas ou doadas, não só como forma de diminuir a nossa pegada no planeta, mas também por demonstração de respeito pelas próximas gerações que terão de lidar com todo o desperdício que estamos a viver nos tempos presentes.

Sobre o seu trabalho, o artista diz que o objetivo não é meramente estético. Um dos pontos que eu dou a favor de Bordalo II é a forma de passar a mensagem, qualquer transeunte facilmente é puxado pelo magnetismo das esculturas, a sua dimensão, as cores brilhantes, até o próprio facto de estar na rua à mão de semear, no quotidiano de qualquer um, num contexto familiar – na minha rua…-, é assim que se sensibiliza o mais comum mortal para a mensagem do artista, com uma peça atraente, que não só tem uma mensagem importante, mas que também valoriza o espaço e o dia-a-dia dessas mesmas pessoas.

“A ideia não é criar um animal bonito feito com lixo. Acima de tudo devemos preocupar-nos com o mundo e com a natureza e é estúpido que por coisas mesquinhas o estejamos a estragar.” Ver a entrevista aqui


World Gone Crazy

Na mesma linha que são construídos os animais, também nascem as instalações deste projeto. O tema central continua a ser uma critica à sociedade e neste caso é a busca da felicidade melindrada, a ironia das nossas escolhas, um espelho que envergonha os que cedem à loucura do consumismo desenfreado.

“O mundo está a ser destruído e eu estou a criar imagens com aquilo que o destrói, com aquilo que destrói a natureza, que a vai degradando.” Entrevista no DN

Um dos aspetos centrais das obras de Bordalo II é o facto de serem públicas, a grande maioria estão (e são) da rua, como ele mesmo diz, a sua arte é pública, serve para toda a sociedade e é assim que vê o trabalho artístico na sua generalidade. A rua serve como palco onde apresenta os seus manifestos e ideais. Bordalo II pretende alterar consciências e para isso, o ideal é que esteja presente todos os dias, ao estar na rua, está também na mente e subconsciente de mais pessoas quanto possível.

“Ter um background de rua ajuda sempre a querer fazer mais e maior. Quando trabalhamos na rua estamos quase a combater diretamente com a publicidade, com os outdoors, e com uma série de outras coisas que têm muita visibilidade, e que são feitas de propósito para as pessoas olharem. Quando tu pintas na rua é preciso fazer uma coisa grande, impactante, para conseguir chamar a atenção, embora nunca se saiba realmente para quem é, ou se é para alguém.” Entrevista no DN


Sobre o Artista

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ATTERO by Bordalo II | Inauguração
Foto de Alípio Padilha

Artur Bordalo, nascido em Lisboa em 1987. O seu trabalho tem-no levado pelo mundo fora. Em Portugal só temos acesso a sensivelmente 20% das suas instalações públicas.

Neto do artista plástico Real Bordalo, conhecido pelos seus óleos das paisagens Lisboetas e também por ter sido desenhador do Diário de Notícias durante 20 anos. Bordalo II já é puxado desde bem pequeno para o mundo das artes. No seu portfólio inclui a Faculdade de Belas-Artes, mas não da forma como estamos habituados, um artista de coração rebelde que, apesar de referir que aprendeu muito com o curso, enaltece o quanto lhe aborrecia ser obrigado a ter aulas que não queria, assim, acabou por ser suspenso por falta de aproveitamento. Hoje em dia essa “falha” define o seu estilo e personalidade.

“Eu gosto de pintar, de cortar, experimentar, agarrar nos materiais. A teoria não é para mim, é para os filósofos.”

O trabalho de Bordalo II agarra porque logo à primeira vista nos deixa maravilhados, impressiona, as grandes escalas, a complexidade, as cores. Tudo isto tem um grande impacto que depois nos faz olhar um pouco mais longe e compreender a sua existência. A intenção do artista não é de entreter o público nem de o distrair, é precisamente de fazer focar no que realmente é importante.

Ironias, piadas, mensagens sérias e desenfreadas. Bordalo II quer provocar-nos, fazer-nos ponderar sobre as nossas ações, nas consequências do nosso tempo e da nossa vivência. O trabalho em si é efémero, outra coisa não se pode esperar quando falamos em arte pública, principalmente quando instalada por mérito próprio, mas o objetivo principal não se perde, está ao alcance de todos.

“Espero que as pessoas saiam daqui a pensar não só na parte estética, mas também em todos os outros aspectos políticos e conceptuais que isto poderá levantar.” Entrevista no Público



Facebook do artista

Instagram do artista


Imagem de capa: Bordalo II | Foto em facebook.com/BORDALOII e bordaloii.com


 

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