Ana Manso na galeria Pedro Cera

“Eye Massage” de Ana Manso está em exposição na Galeria Pedro Cera, em Lisboa, desde 9 de novembro até 22 de dezembro de 2018.

Folha de Sala

Conhecida pelas suas telas vibrantes e abstractas e por fazer uso do tempo como elemento crucial do seu processo de pintura por acumulação de camadas, as pinturas de Manso são uma sucessão de espaços de tempo suspensos, fundindo superfícies e transparências para permitir o surgimento de encontros, aparentemente inesperados, de cor, forma e conteúdos dispersos. À semelhança da primeira pintura da exposição (Agar, 2018), que esconde o título desta por trás de camadas semi-transparentes de tinta e formas orgânicas reminiscentes de desenho japonês, a maior parte das obras acolhem um mundo oculto de pequenas falhas, acidentes e desvios na linha de pensamento.

Ao passo que o tempo, enquanto método de pintura, ocupa uma posição central na prática da artista, a superfície é um elemento igualmente importante e complementar. Mesmo nas suas breves aventuras e incursões por outros media (habitualmente, nunca durando mais do que uma tarde de inverno), o impulso para explorar as possibilidades ilimitadas e ao mesmo tempo delimitadas de uma superfície (vazia) sem- pre foi constante e uma tentação para a artista. Para Manso, uma superfície é um lugar onde a abstração se encontra com a vida quotidiana. Um espaço de possibilidade e encontro, onde a imprevisibilidade do acaso é orquestrada por uma selecção consciente dos ingredientes certos.

O seu processo de pintura é, deste modo, uma combinação de decisões conscientes e inconscientes. Ao passo que a escolha da superfície, no sentido da instalação de uma determinada pintura, tem sido uma preocupação assumida para a artista há já algum tempo (os seus murais servem aqui apenas como um de muitos exemplos), a superfície, enquanto textura, é um novo elemento na sua prática. Testando os limites da abstracção através da imitação de materiais (superfícies), apropriados do quotidiano — neste caso uma série de pinturas amarelas que simulam uma superfície de madeira, com imagens de ingre- dientes culinários coladas (Diáriamente, 2018), inspirada por um acto de “desobediência criativa”, uma intervenção personalizada no display de um restaurante de noodles em Nova Iorque feita por um visitante anónimo —, Manso não aborda apenas a linha ténue e cada vez mais fraca entre abstracto e figurativo, entre o artificial e o real, mas também a liberdade e a natureza rica e variada da expressão artística. Assegurando-se de que estão fisicamente separados, a artista usa estes motivos imitados/apropriados enquanto elemento e cenário arquitectónico e como forma de produzir um ritmo para a observação das suas pinturas na exposição. A introdução da representação de ingredientes culinários realça, assim, o an- imismo, característico dos microcosmos de formas e configurações específicas da recente série de obras inspiradas na natureza.

Longe de qualquer classificação racional, a natureza orgânica e microcósmica das pinturas de Manso lembram-nos um esfregar de olhos. Flashes de cor e formas são projectados no interior das nossas pál- pebras, alguns evocativos de objectos conhecidos e outros puramente abstractos. A tensão entre ambos cria a necessidade de explorar a profundidade destas pinturas, uma profundidade que já não é produzida pelas diversas camadas de tinta, mas por uma densidade e impenetrabilidade da superfície trabalhada, atraindo sobre si o olhar. A possibilidade sedutora de interpretação inerente a estas pinturas gera, no entanto, um outro tipo de leitura. Uma leitura que, em vez de uma conclusão e de um esquema puramente racional, é dirigida para uma liberdade de associação que nos aproxima da vida.

Ana Manso é licenciada em Artes Plásticas – Pintura, Pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa. O seu trabalho foi exposto no Museu Serralves (Porto), Matadero Madrid (Madrid), FUTURA Centre for Contemporary Art (Praga), Spike Island (Bristol), Chiado 8 – Arte Contemporânea (Lisboa), Museo Nazionale di Capodimonte (Nápoles), Fondazione Rivolidue (Milão) ou Museu da Electricidade (Lisboa) entre outros. Os seus trabalhos fazem parte da coleção do Museu Serralves (Porto), Museu de Arte Contemporânea de Elvas (Elvas, Portugal) ou da Câmara Municipal de Lisboa (Lisboa) entre outras.


Informações úteis: 

Galeria Pedro Cera

Ana Manso

 

Entrada Live

 

Horário: De terça a Sexta: 10h às 13h30 e 14h30 às 19h | Sábado das 14h30 às 19h

Morada: Rua do Patrocínio, 67 E, 1350-229 Lisboa

Transportes: Autocarro: 709 | Eléctrico: 25 e 28

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