Ana Férias em entrevista

O que se esconde por detrás de uma tela? O que existe para lá de uma fotografia? Porque é que um artista vê significado no que outros dispensam sem um segundo olhar? Ana Férias conta ao Estado da Arte sobre a vida e visão de uma artista portuguesa.

Como começou a sua carreira artística? Queremos saber o bom e o mau!

AF: O meu interesse pela arte começou muito cedo. Sempre passei muito tempo a desenhar e a pintar, por essa razão fui estudar Artes plásticas para a Escola Superior de Arte e Design nas Caldas da Rainha. Após terminar o curso foi um pouco difícil, pela falta de apoio aos jovens artistas. Entretanto arranjei um trabalho com o qual consigo conciliar o meu trabalho artístico, sempre que tenho oportunidade vou apresentando os meus trabalhos.

Os seus trabalhos aparecem muito relacionados com o impacto humano no ambiente. Esta preocupação é refletida no seu modo de vida?

AF: O impacto que o Humano provoca no meio ambiente é uma preocupação que está patente no meu trabalho desde 2015. Acho muito importante a consciencialização em torno das questões ambientais e do desenvolvimento sustentável.

Enquanto artista, trabalho sobretudo com lixo, reutilizo coisas que encontro na rua, como plásticos, restos de tecidos, objetos… alguns desses materiais estão comigo há décadas, como normalmente são usados apenas para fotografar, depois são guardados e modificados quando necessário para novas fotografias.

Como é que essa preocupação se reflete nos seus dias?

AF: Penso que todos podemos fazer, mesmo no nosso dia a dia, algumas ações que podem minimizar o nosso impacto seja reduzindo, reutilizando ou reciclando,  participando em campanhas de sensibilização… é o que tento fazer.



Sobre a série “Animais”



“É quase um exercício de projeção o que  para mim se assemelha a um cão, para outra pessoa pode ter uma interpretação completamente diferente.”

Como surgiu a ideia?

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Animals

AF: A ideia surgiu acidentalmente quando encontrei um pequeno pedaço de plástico transparente em cima do iPad,  com a luz do mesmo esse pequeno pedaço de plástico ganhou a forma da cabeça de um animal. Comecei a modelar pequenos pedaços de plástico com forma de animais. Na verdade sugerem animais, são imagens muito abertas para o observador, é quase um exercício de projeção o que  para mim se assemelha a um cão, para outra pessoa pode ter uma interpretação completamente diferente.

Estas composições são feitas por mim, assim como fotografadas.

Entretanto reparei que largou os animais e tem se dedicado mais à flora…
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Natureza Morta

AF: Depois da série “Animais”, comecei a trabalhar com formas mais abstratas, incluindo nas minhas “assemblages” novos materiais: plásticos de garrafas e garrafões de água, collants, redes de cabelo, redes de sacas de batata, collants, pequenos bonecos, pelo sintético, espelhos, vidros partidos, plantas secas, tinta, etc.

Todos os materiais são cuidadosamente escolhidos pois as transparências são muito importantes, assim como os materiais que criam zonas de densidade negra. Todas estas assemblages são fotografadas em cima de uma mesa de luz num espaço escuro. Só quando ligo a luz é que consigo ter uma perceção da composição, pois são reveladas as sombras, linhas, texturas e formas. São assemblages efémeras que são congeladas através da fotografia.



Sobre a série “Plastic Landscapes”



“São paisagens imaginadas de um futuro de paisagens de plástico.”

AF: A série Plastic Landscape, explora a nossa relação com a natureza, entre paisagens naturais e imaginárias. Evocam o interior e exterior muitas vezes separada por uma pequena “membrana” de plástico transparente que sugere leveza, mas que, na realidade, é um elemento muito “pesado” para o ambiente.

“Infelizmente é o mundo que se  está a plastificar, eu uso o plástico como metáfora do nosso desrespeito pela natureza, as ilhas de plástico são um exemplo disso.”

As Naturezas Mortas de 2018 estão a ganhar um tom mais dramático no seu portfólio. A que se deve esta mudança?

AF: A série “Natureza Morta” segue a linha da “Plastic Landscape” com um confronto mais direto com a natureza, as fotos são tiradas no exterior com uma maior liberdade espacial, a luz natural é muito importante nesta série. São imagens que tentam expressar sensações, o plástico funde-se poeticamente com a natureza numa fronteira muito ténue, criando camadas de transparência e de opacidade, quase como dizendo que se vai apoderando da natureza como uma planta  invasora.



Sobre a artista



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Pode contar-nos um pouco mais sobre um dia na vida de artista?

AF: É um dia normal, nem sempre trabalho no atelier, mas todos os dias faço pequenos apontamentos, tiro fotografias ou desenho algo que quero explorar, depois tento materializar essas ideias.

Se tivesse de explicar o seu trabalho a uma criança de 5 anos, como o faria?

AF: Se tivesse que explicar o meu trabalho a uma criança diria que fotográfo materiais que são considerados lixo e que com eles crio as minhas narrativas.

Quem são as suas referências no mundo das artes plásticas?

AF: Louise Bourgeois, John Baldessari, Helena Almeida, Juan Munoz, Richard Serra, Lourdes Castro, Cindy Sherman, Mark Rothko, Antony GormleyLygia Clark

Escolha um, e apenas um, dos seus trabalhos e fale-nos do seu significado emocional.
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Sem Título, série Plastic Landscape. Fotografia. 2018

“Esta imagem representa uma paisagem imaginária, uma “distopia” com esperança num mundo mais equilibrado.”


A pergunta mais íntima: Como define o conceito de arte?

AF: Enquanto artista penso que a arte é a capacidade de expressarmos aquilo que observamos e experiênciamos do mundo e dos outros, tudo isso, é refletido e materializado de uma forma muito pessoal.

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