A visita às Poses e Variações no Museu Calouste Gulbenkian

Do neoclassicismo ao romantismo e com um toque de realismo, o Museu Calouste Gulbenkian inaugurou um portal para o passado e quando o passamos podemos deslumbrar o quotidiano do século XIX.

São artistas que se inspiram nos próprios filhos para criar poses e movimentos naturais, não muito diferente de um pai que filma ou fotografa o seu filho para lembrar os melhores momentos da sua infância. Só um pequeno detalhe, em vez de clicar no ecrã do smartphone, “clica” incessávelmente no mármore até criar curvas, formas e poses perfeitas. Uma escultura é mais do que uma representação, são horas e dias a fio de estudo.

Imaginemos o processo, que na realidade tem muito de matemático e observação. Não é só admirar a criança que corre e faz coisas fofinhas, é compreender o movimento das pernas, dos braços, da cabeça, a tensão dos tendões em cada movimento, dos músculos, as pregas da pele (das perninhas e dos pezinhos gordinhos), as dobras nas orelhas, a cartilagem, a textura e resposta dos tecidos da roupa… enfim, um mundo de detalhes que parecem quase fractal que se desdobram em mais e mais para ver (e esculpir).

Enquanto isto vão-se fazendo as medições, medidades chave que vão moldar um paralelipipedo que podia ser nada mais do que uma coluna na entrada de um prédio, mas se vai tornar numa forma humana detalhada onde a pedra, mármore, gesso ou seja o que for se vai confundir com a própria realidade.

Um bom exemplo é a estatueta “Cupido Ferido”, uma representação do filho do artista Jean-Baptiste Carpeaux, que se magoou no braço com três anos, em 1873, e que o artista obrigava a pousar para o poder esculpir, coisa que não devia de ser fácil de conseguir com uma criança com esta idade.

A escultura também é uma ótima forma de romantismo, não há nada como um bom drama teatral petrificado num pedaço de pedra cravado ao ínfimo detalhe, mas neste caso o romance era entre os humanos e os seus seres divinos que os protegiam a todo o custo. Durante toda a história da humanidade há uma necessidade de acreditar em algo maior e melhor que nós, na escultura o romance pelo divino não foi exceção.

Quando falamos em representar o quotidiano destas épocas não é por acaso. Ao entrarmos na sala conseguimos ver um cenário quase de ficção cientifica, em que todos os habitantes foram paralisados para nosso entretenimento. É essa uma das belezas das épocas anteriores às selfies, como os artistas procuravam relatar o que viam, mostrar a beleza do simples ser humano, sem filtros (com muitas aspas e ironias). Incrível imaginar que tudo isto foi feito à pancada (por mais preciso e perfeito que seja). Incrível perceber que experiência, treino, imaginação e muita disciplina conseguem transformar um mono de matéria-prima numa mensagem tão importante que conseguio superar o tempo.

Assim, aqui ficam mais algumas imagens do que podemos lá ver, só para vos deliciar.

Curiosos pelo nome da estatueta do ciclista?

“O jovem Gaston Colin, um amigo do conde Kessler, serviu de modelo ao escultor em 1907 e acredita-se que a escultura acabou por receber o nome “O Pequeno Ciclista” ou “O Veloz Ciclista”, por o modelo ter provavelmente chegado de bicicleta ao estúdio de Maillol.” (pode-se ler e ouvir a explicação na app guia de exposições da Gulbenkian)

Nesta exposição estão presentes nove artistas: Jean-Antoine Houdon, Aimé-Jules Dalou, Paul Dubois, Jean-Baptiste Carpeaux, Edgar Degas, Denys-Pierre Puech, Auguste Rodin, Jean-Baptiste Pigalle e Aristide Maillol.

Para mais informações sobre a exposição, basta clicar aqui.

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