João Pedro Vale tem uma rebeldia de estimação

Sarcasmo, humor e algumas bofetadas, é o que salta à cabeça quando pensamos sobre o trabalho de João Pedro Vale. Mas João Pedro não está sozinho, tendo a assinatura de Nuno Alexandre Ferreira na maioria (se não em todos) dos trabalhos que faz desde 2004.

Eterna e internamente ligado aos movimentos LGBT, o seu trabalho reflete, na sua maioria, os efeitos, reflexões e resultados da comunidade gay na arte (e no mundo).

João Pedro Vale nem sempre é subtil, não usa coisas ao acaso e cria em liberdade, com intenção e sentimento. Não foi ele a primeira pessoa a associar o Cristo Rei de Almada a um pénis, muito humor nasce dos genitais petrificados desta ode à religião cristã que olha por Lisboa na fronteira do rio, mas ele que criou todo um merchandising em volta desta ideia. Se for religioso, simpatizante ou simplesmente se se sentir ofendido, não fique, tudo isto tem uma razão de ser. A arte não é apenas um bom empreendedor e demagogo que vende ideias, no seu melhor arte é expressão, é uma voz que está a tentar falar mais alto. É aqui que entra João Pedro Vale (e os seus pénis de estimação).

P-Town transformou-se numa fanzine de colaborações onde os artistas dão o seu olhar queer sobre os temas abordados. Algo em falta em Portugal, diga-se de passagem, para ajudar a quem não compreende este mundo. Mais do que se aceitar, é uma forma de se compreender formas de viver.

“Tendo em conta que, no final, acaba por ser um olhar “queer” sobre as temáticas abordadas, e uma vez que sentimos que não existem muitas “queerzines” ou publicações LGBT em Portugal, pensamos fazer sentido continuar o projecto em números posteriores”. (Em entrevista para o público)

Passando às partes mais práticas, os materiais e a sua transformação. Neste campo há pano para mangas com este artista: ganga, sabão, pastilhas elásticas, vaselina, tecidos, trampolins com lantejoulas, vidro, metal, gesso, enfim, um sem fim de possibilidades. Aliás, isto tem um nome, é a linguagem Kitsch. Isto quer dizer que o artista pega em objetos vulgares como, por exemplo, uma bola de basquetebol, uma toalha de banho, um trampolim, perucas, canecas, etc. e desconstrói o seu valor, dando uma nova voz àquilo que em tempos foi produzido para o consumo em massa, para entretenimento, ou para outra coisa qualquer. João Pedro Vale tem a capacidade de adicionar emoção e rebeldia aos objetos mais banais do dia-a-dia.

Esta forma de criar traz todo um jogo entre a ilusão, pré-conceito e significado profundo. Às vezes até podem ser só piadas, suspeito eu…, mas no fim conseguimos compreender o carácter manipulador de cada uma das peças, a alma e missão que lhe foi dada.

Um dos objetivos do artista tem de ser o de incomodar o espectador. Não sejamos inocentes e achar que são só lições de moral e educação para uma mais abrangente moral na cidadania. Em 2009 adaptou a obra “Moby Dick”, de Herman Melville e transformou-a num filme porno gay, apresentado no Museu Coleção Berardo. E a ousadia continua a ponto se já terem tido uma exposição cancelada por abordar a temática homosexual. Uma das suas obras gritava a frase de guerra “A homofobia está a matar a arte!”



Biografias



Noivos de Santo António, 2015 | Transfer e acrílico s: tecido. | 18 x 24 x 4 cm
Noivos de Santo António, 2015 | Transfer e acrílico s/ tecido | 18×24 x4cm

João Pedro Vale

Nasceu em Lisboa em 1976 onde vive e trabalha atualmente.

– Licenciatura no Curso de Escultura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa (1999).

– Curso Avançado em Artes Visuais da Maumaus – Escola de Artes Visuais (2000).

– 2002 – Artist-in-Residence, National Sculpture Factory, Cork, Irlanda.

– 2004 – Prémio de Escultura City Desk, Portugal.

– 2008-09 – Artist-in-Residence, International Studio and Curatorial Program, Nova Iorque, E.U.A..

 

Nuno Alexandre Ferreira

Nasceu em Torres Vedras em 1973, vive e trabalha em Lisboa.

Estudou Sociologia na Universidade Nova de Lisboa.



Referências



João Pedro Vale

Instituto Camões

Fundação Calouste Gulbenkian

Revista Umbigo

Jornal Sol

MNAC

Jornal Expresso

CDAP

Arte Capital

Queer Lisboa

As imagens foram retiradas do website do artista

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.