Fernando José Pereira, na Galeria Sismógrafo

Do tempo exilado ou a emergência da utopia, exposição de Fernando José Pereira, está patente no Sismógrafo, no Porto, desde 21 de outubro a 25 de novembro de 2017.

Arrancar alegria ao futuro
Curadoria de Óscar Faria

A questão da vanguarda é um dos assuntos centrais da exposição de Fernando José Pereira. Esse assunto surgiu recorrentemente não só durante o processo de selecção dos trabalhos, mas também na montagem das obras no Sismógrafo. O artista pretende inscrever a sua prática numa linhagem na qual a questão das relações entre a arte e a política assumiu sempre um papel determinante. Trata-se de um debate pertinente, sobretudo no ano em que se comemoram os 100 anos da Revolução Russa, sublinhando-se aqui a coincidência entre esta mostra e a subida ao poder do Partido Bolchevique, liderado por Lenine. É esse instante histórico que marca o princípio e o fim de uma série de movimentos artísticos que procuram transformar o mundo e mudar a vida: construtivismo, suprematismo, raionismo, cubofuturismo, etc.

Ao reclamar-se dessa tradição, Fernando José Pereira coloca a sua obra perante um paradoxo, pois se as vanguardas tiveram os seus momentos históricos bem definidos, quer no início do século XX, quer no pós-segunda Guerra Mundial, sobretudo a década de sessenta até à V documenta de Kassel, as condições da possibilidade da sua afirmação mudaram radicalmente. O que não significa abandonar a necessidade de se discutir o que fazer quando também as práticas mais resilientes se confrontam com um panorama onde tudo se reduz a um permanente espectáculo.

É possível existirem hoje vanguardas? Seja a réplica positiva ou negativa, a margem de erro é muito grande para se arriscar uma resposta definitiva. Há uma hipótese de trabalho que pode servir de ponto de partida para esta problemática: a célebre frase de Marcel Duchamp, “O grande artista de amanhã será clandestino”, a qual encerra o ensaio “Para onde vamos a partir daqui?” (Philadelphia Museum College of Art, Março de 1961). Assim, olhando para o contexto da arte contemporânea, essa premonição do artista francês parece fazer todo o sentido: é nas zonas limítrofes do meio artístico que se pode ainda detectar uma certa fricção relativa aos discursos dominantes, tutelados sobretudo pela economia.

Talvez por isso seja mais produtivo, pelo menos por agora, deslocar a questão da vanguarda, ela própria afectada por inúmeras contradições, para uma outra formulação, um outro plano. A obra de Fernando José Pereira é moderna, absolutamente actual e coloca no seu centro problemas relacionadas não só com o fazer artístico, mas também com a forma como a arte e a política podem confluir em trabalhos com uma cuidada componente estética – e neste caso temos também o legado das práticas vanguardistas do século XX. É essa relação com um presente em crise que surge como uma força maior desta obra: existe nela a colisão entre a intimidade do artista e a sua visão de um mundo devastado.

A exposição no Sismógrafo é composta por desenhos e dois filmes. Em ambos os casos, é o tempo o assunto dos trabalhos. O tempo nos quais são realizados, o tempo nos quais são apresentados. O tempo individual e o tempo colectivo. A vida e a época na qual esta se manifesta através de obras de arte. Se nos anos dez ou sessenta do século passado esse cruzamento de tempos eram declinados em obras com uma forte componente de “originalidade”, hoje as manifestações individuais, despidas de todos os romantismos, têm tornado operativa a noção de real. Não já esse retorno do real de que nos falava Hal Foster, nem sequer um qualquer neo-realismo, mas a reabilitação do real quotidiano (Cesariny), ele mesmo, do qual emergem as experiências únicas que nos ajudam a compreender outras existências, a descobrir diferentes mundos, e a perceber que para além da estética, há uma ética da resistência essencial para que uma ideia de vanguarda possa ainda subsistir.

Se o viajante é a figura que nos vídeos de Fernando José Pereira define a nossa época – e triste tempo o nosso no qual turista tomou conta da nossa paisagem, moldando-a em todos os seus aspectos mais palpáveis –, é sobretudo no corpo de desenhos que detectamos essa ligação íntima à história das vanguardas. A persistência nesta actividade, destacando-se a minúcia com a qual estas obras são realizadas, é em si um acto de protesto relativamente à forma como somos expropriados dessas horas necessárias à formação do pensamento crítico, o qual, por sua vez, irá consolidar uma prática, neste caso a artística. No Sismógrafo revelamos apenas alguns dos exemplos mais recentes deste tipo de trabalhos, contudo esta opção tem como objectivo fazer o contraponto com as imagens em movimento também apresentados nas nossas salas.

Há uma qualidade formal nestes trabalhos que merece ser sublinhada. Eles propõem pensar o tempo. O nosso tempo sem tempo. O tempo de factura destas obras, que pressupõem uma prática de ateliê na qual se investem horas a fio. O tempo em que as vemos e nos damos conta das frases nelas incluídas, quer enquanto colagens – juntamente com a montagem, o grande contributo das vanguardas para a História da Arte –, quer como palavra de ordem: “stay”, fica, esse Trompe-l’oeil de um grafito, gesto que irrompe da rua para nos interpelar à acção ou melhor, como é o caso, à inacção.

É necessário ouvir esta voz que repete, numa espera de aeroporto, “quantas horas ainda te faltam?”. É primordial ler estas palavras que nos dizem: “utopian emergency” (“emergência utópica”). É imprescindível dar tempo ao tempo. E assim voltar às ideias de Malevich, de Maiakovski:

É preciso
arrancar alegria
ao futuro.
Nesta vida
morrer não é difícil.
O difícil
é a vida e seu ofício.

Sobre o Artista

Fernando José Pereira vive e trabalha no Porto. Possui a Licenciatura em Artes Plásticas na Universidade de Porto e o Doutoramento em Belas Artes na Universidad de Vigo (com a tese: Arte contemporânea. A utopia de uma existência exilada. Os desenvolvimentos numéricos como nova (im)posibilidade aporética, 2001). Recebeu várias bolsas de estudo e investigação da Fundação Calouste Gulbenkian (1985/1989, 1997/98, 1999/2001). É co-director do projecto virose-org e investigador no Instituto de Investigação em Arte e Design. Expõe regularmente em museus, galerias e outros espaços, sendo as mais recentes participações: “The 10th Berlin International Directors Lounge [DLX]”, Berlim, Alemanha. (2014); “Todo lo que pueda desertar | Anything that might desert”, Galeria Adhoc, Vigo, Espanha; “Region 0. The Latino Video Art Festival of New York”. King Juan Carlos I of Spain Center at NYU, New York, USA (2013); “Colección: adquisiciones e incorporaciones recientes”, Centro Galego de Arte Contemporánea, Santiago de Compostela, Espanha, (2013); “Colecção de Serralves: Obras Recentes”, Museu de Serralves, Porto, Portugal, (2013). Tem obras nas seguintes colecções públicas: Fundação de Serralves, Instituto de Arte Contemporánea, Centro Galego de Arte Contemporânea (CGAC) , Museu do Neo-Realismo, Fundação Calouste Gulbenkian, Museu da Cidade, Lisboa, Colecção Fundação PLMJ, Fundação Ilídio Pinho, Universidade do Porto. É autor de diversos textos publicados, sendo os mais recentes, “Projecto de expansão de um tripé para terminar em bico”, in Outra vez não – Eduardo Batarda, Fundação de Serralves, Porto, 2012; “A aragem da Utopia”, in História da Arte – ensaios contemporâneos, Brasil, 2011; “News of the the Desolation – Notes on Art and real”, in The International Journal of The Arts in Society, 2010, Illinois, USA. Participa com comunicações em congressos e conferências, sendo as mais recentes: na Finnish Academy of Arts em Helsínquia, 2014; no “Skaftfell Center for Visual Art”, Seyðisfjörður, Islândia, 2012 e nas “Looking North conferences”, Newcastle, UK, 2010.

 


Informações úteis: sismografo

Galeria Sismógrafo

 

Horário:

De quinta a sábado, das 15h às 19h

 

Morada:

Praça dos Poveiros 56, salas 1&2 4000-393 Porto

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