Moisés Duarte na Arte Periférica

Flor do Abismo de Moisés Duarte está patente na Galeria Arte Periférica, em Lisboa, desde 16 de setembro até 26 de outubro de 2017.

O trabalho de Moisés Duarte é morfológico e metamórfico. O movimento do olhar surpreende nestas telas ritmos descontínuos de devir, repartidos entre a progressão sucessiva de manchas de cor e a estabilização momentânea na aparição em primeiro plano do desenho de um ser vegetal.

O olhar expande-se no torvelinho de cores e acompanha-o numa grande variedade de movimentos, entre os lentos e etéreos das manchas em certa imagem de breve turvação ondulada de fundo marinho e os que, de densidades irregulares, se mostram em conglomerados de formas disruptivas. A difusão branda de pródigas manchas de cor, de consistência límpida e dispersa, dá lugar noutras telas ao fundo onde acontece o desenho de uma ou de várias plantas. Por vezes, uma flor. Ocorrem-nos algumas narrativas.

Cézanne confessara certa vez a Joachim Gasquet que a cor era a única estrada para a transmissão de tudo e que a pintura começa por ser uma óptica. De facto, em algumas destas pinturas, o olhar acompanha o ritmo de fluidez das formas da cor, ritmo flutuante e desamparado de naturezas-mortas (objetos, construções, pedaços, formas simples e complexas…) que decidissem vogar conforme tépidas correntes oceânicas até se lançarem, noutros quadros, num moroso vórtice descendente e dissolutivo, do qual finalmente só restassem a substância das cores como vestígios da inundação da caverna platónica.

Noutras, as formas levitam, estilhaçam-se, ascendem em moles e traços, desenvencilham-se dos seus significantes. A cor ocupa o lugar orgânico deixado sobre os restos das coisas arrastadas para a matéria, dissolvidas que foram as suas formas. Cézanne novamente: “A cor é biológica, se posso dizê-lo. A cor está viva, ela basta para as coisas se tornarem vivas”. Nesse cosmos tornado abismo, impera a memória dos arquétipos da anterior ocupação. Primeiro, as plantas. Após o Dilúvio, a pomba trouxe a Noé, à tarde, a novidade de uma folha verde de oliveira. Nestas telas, elas desenham-se entre traços a negro, sombreados ou breves sobreposições de pontilhados, padrões visuais de um possível novo repovoamento da Terra. Entre as referências a folhas, a caules, a estames, a tubérculos nodosos, ao vaso que principia a irradiar a cor, a sépalas e a pétalas, os contornos vão progredindo verticalmente nos fundos opulentos de manchas coloridas.

Estas, como nuvens ou como borraduras de aguarela, umas vezes deslizam sobre os traços, outras cobrem-nos parcialmente. Emergindo devagar para o centro da tela, as plantas, em conjunto ou mais frequentemente isoladas em grande plano, reinstauram o sentido da forma. Como imagens, porém, ascendem ao quadro enquanto representações provisórias cuja condição orgânica se mostra na memória dos contornos, evocando a espécie primordial que a morfologia vegetal de Goethe consagrava na Urpflanze, a forma arquetípica de que as telas de Moisés Duarte nos concedem vislumbres variados das fases mais características da sua condição protaica. Das flores de linhas mais precisas, a rosa. A das múltiplas pétalas, a da corola abrigada, a flor do abismo místico.

A “coisa completa por excelência, / a si mesmo se contendo totalmente, / e a si mesma infinitamente se difundindo”, segundo versos de Rilke. Contraponto simbólico da deriva colorida que torna as coisas vivas, ela é vestígio despojado da razão, clareza preparatória das visões, ícone no texto da tela remetendo para a essencialidade da vida. A rosa sem porquê do místico Angelus Silesius, existência pura florescendo porque é flor, ou, nas palavras de Manuel Gusmão, experiência percetível da “exasperação / do branco / revérbero do negro / disciplinado delírio / da roseira / vertigem ascendente // rigoroso perfeito / paciente / furor.” No trabalho veemente destes quadros, a rosa, tal como as outras plantas, as restantes flores, os cálices e as sementes, as leves folhas flutuando para os lados dos caules, ascendem do abismo metafísico às dimensões da estrada visível das coisas que se querem vivas, o caminho da transmissão de tudo. Com o júbilo ininterrupto da cor, o encontro da matriz sem porquê de uma feição dinâmica de ocupar o mundo.

Francisco Saraiva Fino


Informações úteis: arte periferica

Arte Periférica

 

Horário:

entre as 10h e as 20h

 

Morada:

Centro Cultural de Belém, loja 3, 1449-003 Lisboa

 

Transportes:

Autocarros: 28, 714, 727, 729, a751

Elétricos: E15

Comboios: Linha de Cascais, Belém

Barcos: Belém – Trafaria/Cacilhas

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