João Leonardo no MNAC

Decadança, exposição de João Leonardo está patente no MNAC, em Lisboa, desde 8 de setembro até 3 de dezembro de 2017.

A produção artística de João Leonardo tem conhecido diversas estratégias de consumação mas tem-se mantido fiel a um núcleo essencial de assuntos: as políticas do corpo, o controlo social e a identidade  atravessam decisivamente esta produção que vista mais de perto revelará ainda uma dissecação mais específica dos temas do vício, da compulsão e da ideia de decadência. Esta linha de trabalho materializou-se decisivamente na utilização artística mais sistemática que João Leonardo vem fazendo dos cigarros que fuma, agindo como um recoletor do seu próprio desperdício, tornando-o sintomático de circunstâncias biográficas e emocionais ou gerando com ele imagens paradoxais.

O fumo regressa na mostra que João Leonardo agora nos oferece mas com uma presença mais subtil e capaz de iluminar o perfil do seu percurso anterior.

A apresentação é composta por duas peças que estabelecem uma evidente relação dialética: no vídeo “Un portugais, c’est un autre portugais” Leonardo recupera uma entrevista radiofónica dada pela escritora francesa Marguerite Duras em 1976. O artista resgata o conteúdo verbal  e o som original: ouvimos os cigarros que Duras fuma ininterruptamente, mas também o som do gelo no copo de whisky, a espessura da voz, a respiração, vestígios de características idiossincráticas de Duras, que não vemos nunca.

A única referência visual no vídeo é o movimento do fumo e os seus torvelinhos hipnóticos no espaço ao longo do tempo de um cigarro poisado num cinzeiro colocado fora de campo. Trata-se de uma dança lenta e sem destino tão evanescente e desmaterializada que contrasta com as palavras de Duras repletas de questionamentos e perplexidades.

O artista intervém pela tradução e dramatização pessoal do texto, uma espécie de duplicação fantasmagórica que reforça a tese implícita nas palavras da escritora francesa: a impossibilidade de um auto-retrato e de uma definição pessoal quer pela obra, quer pela soma das condições identitárias pessoais e políticas.

Esta peça deve ver-se em franca sintonia com a escultura-imagem que dá título à exposição. Nela encontramos dois dos livros mais canónicos do século XX (respetivamente “A interpretação dos sonhos” de Sigmund Freud e “O capital” de Karl Marx) que Leonardo junta num aquário, submersos em… whisky. Referência direta à decadência dos modelos sistémicos explicativos da realidade que formataram o século XX e às aspirações emancipatórias, bem como aos desígnios artísticos a que se associaram, “Decadança” não é tanto uma ironia iconoclasta como um manifesto pela essencial impureza do gesto artístico.

 

Curadoria: Celso Martins

 


Informações Úteis: mnac

MNAC

João Leonardo

 

Entrada (variável) 4,50

 

Horário:

Terça-feira a domingo: 10h00 às 18h00

Entrada gratuita no 1º Domingo de cada mês

 

Morada:

Rua Serpa Pinto, 4 | Rua Capelo, 13, 1200-444 Lisboa

 

Transportes:

Autocarro: 60, 208, 758

Eléctrico: 28

Estação de Metro: Baixa-Chiado

 

Parques de estacionamento mais próximos:

Cais do Sodré, Largo do Corpo Santo, Praça Luís de Camões, Largo do Carmo, Santa Catarina

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Create a free website or blog at WordPress.com.

EM CIMA ↑

%d bloggers like this: