Rogério Timóteo, quando a paixão se move em toneladas

Rogério Timóteo, o escultor que transforma o mármore (e muito mais) em emoção, atitude e sentimentos que assolam o corpo e mente humanos.

Num olhar atento antes dos resultados da criatividade de Timóteo, a sua escultura é quase um trabalho de risco, como ele mesmo diz, lida diariamente com máquinas abrasivas que cortam a milhares de rotações por minuto, e mais ainda, tendo em conta os seus materiais de seleção, tem de carregar toneladas de material para continuar com o seu trabalho. Mas como em tudo na vida, a sua paixão pelas artes e criação suplantam qualquer risco.

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Rogério Timóteo

Rogério Timóteo é natural de Anços, em Sintra, nasceu em 1967 e trabalha sobretudo com mármore, bronze, ferro e resina – “Tendo nascido e crescido numa região predominantemente ligada à extração e transformação de mármores é com naturalidade que escolhe o mármore como matéria-prima preferencial para as suas esculturas, não excluindo, no entanto abordagens a novos materiais e técnicas, tais como bronze, ferro e mais recentemente resinas.”

 

Rogério Timóteo é natural de Anços, em Sintra, nasceu em 1967 e trabalha sobretudo com mármore, bronze, ferro e resina.

Inspirado e instruído pelo mestre Pedro Anjo Teixeira, Timóteo faz continuar uma linha de escultores que esculpem o ser humano, e hoje em dia as suas criações artísticas são expostas além fronteiras, dando oportunidade ao mundo de conhecer o que se faz de arte em Portugal, e o reflexo de uma história exploradora e romântica. A expressão da sua criatividade também já lhe valeu o primeiro prémio de escultura em Lisboa em 1987, e em 2015 o VERA World Fine Art Festival, na categoria de Escultura com o prémio <tratamento bem sucedido de forma e volume do espaço>; conta já com 35 exposições individuais e participou em mais de 200 exposições coletivas, em Portugal e no estrangeiro, e encontra-se representado em coleções particulares em Portugal, Alemanha, Austrália, Áustria, Canadá, Escócia, Espanha, EUA, França, Holanda, Inglaterra, Irlanda, Luxemburgo, Polónia, Suíça, Uruguai e Itália.

Sobre Anjo Teixeira, diz ainda que “Para além de professor, tive a honra de o ter como grande amigo, apesar da nossa diferença de idades. Estou eternamente grato pela sua enorme generosidade de me aceitar enquanto aluno, transmitindo-me o seu imenso conhecimento nas mais variadas tecnologias da escultura.” em entrevista CM Sintra, junho 2016.

As esculturas de Rogério parecem estar a pousar para nós, à espera de serem vistas, sentidas e compreendidas, a sua massividade impõe-se de forma elegante por vezes pelo próprio tamanho outras pelo material que se alia ao tema e textura para intimidar pelo seu peso.

Absolutamente tudo, provavelmente nada - caixa de pandora - 40x30x30 cm | Resina:Ferro e aço inox.jpg
Absolutamente tudo, provavelmente nada – caixa de pandora | 40x30x30 cm | Resina/Ferro e aço inox

Observando por exemplo a Absolutamente Tudo, Provavelmente Nada – obra para a exposição Caixa de Pandora -, a personagem trazida ao mundo pela resina, ferro e aço inox, suspensa no cubo em posição fetal, parece estar à nossa espera para contemplar a sua salvação e libertação:

“Das regiões mais profundas da nossa mente crepitam labaredas de fogo antigo alimentando os nossos medos, consumindo as nossas forças e refreando as nossas vontades. Suspenso no vazio o Homem procura a sua liberdade, transportando consigo a matriz originária da condição humana, cria os seus próprios mundos, que   anunciam futuros diferentes.

A caixa está absolutamente cheia, a caixa está provavelmente vazia.”

Rogério Timóteo

O Salto | 170x30x40 cm | Mármore:Metal.jpg
O Salto | 170x30x40 cm | Mármore/Metal

O Salto, apresenta o já habitual homem nu esculpido pelo artista, de traços genéricos e fortes na ponta de um suporte de metal. Timóteo explora aqui um contraste de coragem com humildade, onde as linhas suaves e o tratamento do mármore criam uma sensação de pele leitosa, fria, pesada e ao mesmo tempo elegante, esta representação do homem é nos oferecida a transbordar de humildade e honestidade. A sua posição encolhida com os joelhos perto dos ombros a formar um casulo para os braços e cabeça inclinada, faz parecer que a escultura está prestes a cair do seu poiso de metal. As linhas desta metáfora do corpo e atitude humana estão quase que como entregues a um pedaço de cetim, em espera de ser recebido e segurado por nós.

Homem Alado | 186x420x38 cm | Mármore e Relevo.jpg

 

Num tom ainda metafórico e mais mitológico, é esculpido mais uma vez o homem genérico, mas desta vez Timóteo decidiu vesti-lo para, de certa forma, minimizar a sua exposição ao público. O Homem Alado está de frente para nós, numa posição quase inabalável não fosse a sua expressão de desespero alimentada pelas asas de metal que apesar de desapegadas do corpo, estão metaforicamente pegadas à alma. As asas que supostamente nos fariam voar, mas são tão pesadas que nos mantêm no chão, representam a metáfora que tantas vezes reflete a vida de quem quer ir mais longe, mas de alguma forma se sente bloqueado.

Rogério Timóteo é um artista torturado que confessa que o seu corpo físico não será capaz de acompanhar tudo o que a sua mente consegue e quer criar. É um artista levado e abastecido pela sua paixão, pela sua arte e vontade de criar, e admite ter esta chama de paixão bem acesa. Nas suas obras explora o corpo humano, a sua atitude, emoções e mitologia.

 


Artist Statement

“O pó entranha-se, em cada inspiração, em cada poro do nosso corpo. Este pó leve, seco, paira no ar cobrindo homens, confundindo-os com a matéria-prima que exploram desde séculos.

Arrancam blocos disformes das entranhas da terra, transportam toneladas de pedra pelas encostas íngremes das pedreiras. Desbasta-se o bloco limpando-o das impurezas, alisa-se a superfície e, conforme a sua qualidade, empilha-se em imensos estaleiros, aguardando a sua vez de servir a Sociedade. Apenas uma ínfima parte deste mármore terá a qualidade suficiente para despertar um sentimento criativo.

É neste meio que nasço para a vida que, juntamente com a ligação familiar na exploração e transformação dos mármores, influenciará o meu futuro.

Durante toda a infância e adolescência assimilei a sua dureza, a sua força, a sua nobreza e entendi as suas características na sua formação geológica. Visualizei as várias fases do processo de tornar um bloco disforme, duro, pesado, numa obra de arte. Aprendi com os melhores os segredos do mármore, as particularidades das técnicas, principalmente a humildade perante uma matéria-prima tão nobre.

Ao longo destes anos, trabalhei diariamente, dedicando-me, de corpo e alma a uma escultura que pudesse, de algum modo, transmitir os meus medos, as minhas alegrias, os meus anseios, aquilo que sou enquanto ser humano. Foram horas, dias, meses, anos de árduo labor oficinal em diálogos solitários com a matéria.

Da matéria foram criadas formas, nasceram esculturas e a pulsão das mãos ficaram vincadas na superfície do mármore.”

Rogério Timóteo”


Um pouco mais do artista:

 

Bibliografia do artista

1995 – Aspectos das Artes Plásticas em Portugal II de Fernando Infante do Carmo

1997 – Who is who of the Artists in Portugal?

2002 – Cerâmica e Escultura – Painel de Artistas – Carlos Bajouca

2004 – Escultura e Desporto em Portugal de Maria José Maya

Citado em diversas revistas e publicações nacionais e estrangeiras

Filmografia

– Dois vídeos realizados por Álvaro Queiroz no meu Atelier (Anços) constam do acervo da cinemateca Portuguesa

ANIM – Arquivo Nacional das Imagens em Movimento

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