Augusto Alves da Silva, no Sismógrafo

Paradise City de Augusto Alves da Silva está em exposição na Galeria Sismógrafo, Porto, desde 26 de maio até 17 de junho de 2017.

Paraísos Artificiais, por Óscar Faria

My silly old body is here alone with the snow and the crows and the exercise-book that opens like a door and lets me far down into the now friendly dark.
Carta de Samuel Beckett para Ethna MacCarthy, 10 de Janeiro de 1959

As cidades podem ser vistas como um paraíso. Há contudo, cada vez mais, quem as olhe como o próprio inferno. Talvez Dante nos ajude, ao colocar, entre os dois extremos, um estádio intermédio: o purgatório. Nesse lugar situado entre o nascimento e morte, encontramos a solidão. Se, para uns, esse estado os aproxima do céu, como é o caso dos místicos, para outros, essa experiência coloca-os à beira do abismo. Na paisagem urbana dos nossos dias, onde tudo é passível de ser trocado, rareiam os lugares solitários, mas vêem-se cada vez mais exilados de si mesmos e do mundo que os rodeia.

“Paradise City” é o título da exposição de Augusto Alves da Silva. São três fotografias inéditas, recentes. Imagens cruas, reais, sem artifícios, que nos dão conta da erosão quer dos afectos, quer da natureza. A cidade, vista à distância, surge como um cenário desabitado, apenas identificada pelas suas torres Eiffell e Montparnasse. É uma paisagem desoladora e em permanente construção. Pressente-se que uma via de circulação automóvel demarca uma fronteira cada vez menos definida. Os guindastes são os nossos guias: quase tocamos o céu, mas essa ascensão afasta-nos da terra. No purgatório, ficamos: “O sol flameja atrás em roxo raio/ e se me quebra diante na figura,/ que a linha de seus dardos lhe distraio./ E temendo abandono, em tal agrura/ ao lado me voltei: foi quando vi/ na minha frente apenas terra escura; (…)”.

A exposição funciona como um todo, é um tríptico: paisagem urbana, natureza e nudez. A inocência perdida e os paraísos artificiais. A ilusão da fotografia, que tudo parece mostrar, mas, afinal, nada deixa a ver. Rasas como o chão, as imagens de Augusto Alves da Silva aparentam não ter qualidades, contudo, elas definem, como poucas, este nosso tempo: banal, violento, desumano. Pode-se encontrar aqui uma estratégia próxima da montagem cinematográfica ou da cesura poética. A cada instante que observamos uma obra temos de a relacionar com as outras presentes no espaço, constituir uma narrativa, traçar uma história. E para essa construção não nos podemos esquecer de convocar a restante produção do artista.

Augusto Alves da Silva é um fotógrafo de solidões, da sua e da dos outros. É também um autor de imagens com uma acentuada dimensão política. Podemos estabelecer assim uma outra definição para a sua prática artística: ensaios acerca da condição humana. Tudo aquilo que atravessa uma fotografia captada por si – um abrigo ou um sem-abrigo, o detalhe de um corpo ou de uma arquitectura, um acontecimento público ou a nudez feminina – define com precisão esse lugar onde hoje todos nos movemos sem nos darmos conta: de imagem em imagem, a viver outras vidas, que não a nossa.

Uma música dos Gun N’ Roses dá título à exposição. Há um verso que pode ser aqui referido como estando próximo de Augusto Alves da Silva: “Where the grass is green and the girls are pretty.” Esta será uma das imagens possíveis dessa cidade paradisíaca. Contudo, não nos podemos esquecer que a nudez foi expulsa desse lugar mítico. E, desde então, a paisagem se tornou mais árida, corrompida pelo betão, destruída pelos bombardeiros. Tal como nota Samuel Beckett, através da voz que surge do negro em “Companhia” (1978):“Acabarás tal como és”.
Augusto Alves da Silva (Lisboa, em 1963) Vive e trabalha em Tremez, Portugal. Estudou no London College of Printing (B.A. Hons. Photography) e na Slade School of Fine Art (M.F.A. Media), com duas bolsas da Fundação Calouste Gulbenkian. Foi nomeado para o Prémio União Latina em 1997. Em 1999, foi um dos finalistas do Prémio de Fotografia do Citibank Private Bank e, em 2006, do Prémio BES Photo. Começou a expôr na década de 1990 e das suas exposições individuais destacam-se as realizadas no MUSAC – Museo Arte Contemporânea Castilla y León; no Espaço BES Arte & Finança, em Lisboa; na Galeria Pedro Oliveira, no Porto; no Museu de Serralves, no Porto; na Galeria Fonseca Macedo, em Ponta Delgada; no espaço Chiado 8, em Lisboa; no Centro Português de Fotografia, no Porto; no Museu do Chiado, em Lisboa; no Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofia, em Madrid; na Chisenhale Gallery, em Londres; na Culturgest, entre outras instituições e galerias. Tem participado em várias exposições colectivas em reconhecidas instituições como o Centro de Artes Visuais de Coimbra; o Cultural de Belém, em Lisboa; a Fundação Carmona e Costa, em Lisboa; o Museu de Serralves, no Porto; entre outras. As suas obras estão representadas nas colecções Banco Espírito Santo, Centro Português de Fotografia, FLAD – Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, Fundação PLMJ, Fundacio Foto Colectania, Helga de Alvear, MEIAC – Museo Extremeno e Iberoamericano de Arte Contemporâneo, Museu de Serralves, entre outras.


 

Informações úteis: sismografo

Galeria Sismógrafo

 

Horário:

De quinta a sábado, das 15h às 19h

 

Morada:

Praça dos Poveiros 56, salas 1&2 4000-393 Porto

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