Pedro Sousa Vieira, na Galeria Sismógrafo

Pedro Sousa Vieira apresenta a exposição Uma varanda à justa, patente na Galeria Sismógrafo, no Porto, desde dia 27 de janeiro até 25 de fevereiro de 2017.

Estar na hora do mundo

Sou mais do tipo bebedor de água, sublinha Henri Michaux no posfácio de “Miserável milagre” [Misérable miracle], livro de uma trilogia onde o escritor francês relata as suas experiências com a mescalina – os outros tomos são “L’infini turbulent” e “Paix dans les brisements”. Nesses momentos de alucinação, Michaux desenhava, inventando nesse processo uma escrita, que denominava “balbuciamento visionário” [balbutiement visionnaire]. É o próprio autor que também faz saber, na epígrafe de “Émergences-Résurgences”: “Nascido, criado e instruído num meio e numa cultura unicamente do ‘verbal’*, eu pinto para me descondicionar.”

É em “Mil Platôs: Capitalismo e Esquizofrenia”, que Gilles Deleuze e Félix Guattari escrevem: “Que a escrita seja como a linha do desenho-poema chinês, era o sonho de Kerouac, ou já o de Virginia Woolf. Ela diz que é preciso ‘saturar cada átomo’ e, para isso, eliminar, eliminar tudo o que é semelhança e analogia, mas também ‘tudo colocar’, eliminar tudo o que excede o momento, mas colocar tudo que ele inclui – e o momento não é o instantâneo, é a hecceidade, na qual nos insinuamos, e que se insinua em outras hecceidades por transparência. Estar na hora do mundo. Eis a ligação entre imperceptível, indiscernível, impessoal, as três virtudes.”

Vindo da filosofia escolástica medieval, hecceidade é um conceito cunhado por Duns Scotus para definir as qualidades distintas, propriedades ou características de uma coisa que fazem dela uma coisa particular, sendo a hecceidade a qualidade de um objecto ou de uma pessoa “ser isso”, ou seja, essa diferença individualizante entre “o conceito de ‘um homem’ e o conceito ‘Sócrates’ (uma pessoa específica)”.

As obras de Pedro Sousa Vieira expostas em “Uma varanda à justa” podem ser lidas a partir da sua hecceidade, da sua essência distinta de outras coisas, da sua particularidade. O próprio destas criações é assim o seu desejo em devirem – outra noção desenvolvida por Deleuze e Guattari – imperceptíveis, indiscerníveis e impessoais. O seu território materializa-se em tonalidades que emprestam às imagens – cabeças, paisagens, palavras –, uma dimensão flutuante, liquefeita, difícil de agarrar. Desenho, escultura ou impressão digital, as declinações usadas pelo artista para construir este corpo de trabalhos tendem a reforçar essa ideia de descondicionamento: não existe uma narrativa, contudo, por detrás dessa aparência, tudo nos conta uma história, única, existencial.

Há portanto, imagens que parecem rodar, outras que nos trazem as cintilações de um rio ou de um mar, um negativo de um caniche – que nessa inversão perde o seu ar dócil e se transforma na figura de um pesadelo –, personagens fantasmagóricos e cor, muita cor: azuis, amarelos, verdes e vermelhos. É uma exposição feita de sensações, sóbria, contida, que precisa de ser lida como uma meditação acerca do belo e das formas, por vezes balbuciantes, como este se insinua no mundo. São obras em estado líquido, gasoso, nunca solidificadas. Movem-se e movem-nos com elas através de blocos: uma linha contínua, dípticos, um tríptico. Saíram do arquivo e agora, montadas na parede, pedem a nossa atenção. É pela intuição que chegamos ao seu cerne: estão na hora do mundo, certas, como o relógio que parou de dar as horas, mas continua ali a apontar a direcção de um sonho.

Pedro Sousa Vieira nasceu no Porto (1963), onde vive e trabalha. Em 2015, foi lhe atribuido o 10º Prémio Amadeo de Souza-Cardoso, Museu de Amarante, Portugal. Entre as suas exposições individuais mais recentes contam-se “3,99º”, no Museu Nogueira da Silva (Braga, 2015); “A Gaze from the Back”, na Galeria Belo-Galsterer (Lisboa, 2014); “Preto no Branco”, no Espaço Chiado 8, com curadoria de Bruno Marchand (Lisboa, 2012), “No dia anterior”, Galeria Nuno Centeno (Porto, 2013) e no Centro Cultural Vilaflor, com curadoria de Bruno Marchand (Guimarães, 2011). Das exposições colectivas em que participou destacam-se: “Animália e Natureza na Colecção do CAM”, comissariada por Isabel Carlos para o CAM/Fundação Calouste Gulbenkian (Lisboa, 2014); “À propos des lieux d’origine. Portugal agora”, com curadoria de Clément Minighetti, Marie-Claude Beaud, Björn Dahlströml, no MUDAM – Musée d’Art Moderne Grand-Duc Jean, (Luxemburgo, 2007); “Entre Linhas– Desenho na Colecção da Fundação Luso-Americana”, com curadoria de João Silvério, na Culturgest (Lisboa, 2005), “Zoom 1986-2002 – Colecção de Arte Contemporânea Portuguesa da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento: uma selecção”, com curadoria de Manuel Castro Caldas, no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, (Porto, 2002) e “Linhas de Sombra”, com curadoria de João Miguel Fernandes Jorge e Helena de Freitas, no CAM / Fundação Calouste Gulbenkian, (Lisboa, 1999).


Informações úteis:sismografo

Galeria Sismógrafo

Pedro Sousa Vieira

 

Horário:

De quinta a sábado, das 15h às 19h

 

Morada:

Praça dos Poveiros 56, salas 1&2 4000-393 Porto

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