Daniel Blaufuks, na Galeria Vera Cortês

Tentativa de esgotamento de Daniel Blaufuks está em exposição da galeria Vera Cortês, em Lisboa, desde 26 de novembro até 14 de janeiro de 2017.

Entre a sexta-feira de 18 e o domingo de 20 de Outubro de 1974, o escritor Georges Perec sentou-se, por várias vezes, num café na praça de Saint-Sulpice em Paris

e apontou minuciosamente tudo o que se atravessou no seu campo de visão, entre pessoas conhecidas e desconhe- cidas, números de autocarros, cães, funerais, e o que con- sumiu. Essas anotações “do que geralmente não se anota, do que não se nota, do que não tem importância, do que se passa quando não se passa nada, salvo o tempo….” serviram de base para o livro Tentativa de esgotamento de um local parisiense, uma obra sobre o infraordinário com óbvias ligações à fotogra a contemporânea.

Entre 2009 e 2016 fotografei uma mesa e a janela na minha cozinha em Lisboa. Primeiro atraído pelo silêncio, depois pela forma como a luz caía nos objectos e em seguida pela sua composição geométrica, fui reparando mais e mais em como tudo se repetia e não se repetia devido às ligeiras e quase invisíveis diferenças do dia-a-dia, da altura do ano e das condições meteorológicas. Ao contrário de Perec no café Tabac em Paris, nada, mas mesmo nada, se passava, de facto, diante das janelas luminosas mas opacas, enquanto sobre a mesa os objectos se iam alterando consoante os dias e as necessidades: pratos, copos, jornais, revistas, ores, guardanapos, livros, frutas da época, papéis, instrumentos, mapas.

Lentamente a cozinha, devido ao recolhimento em relação ao mundo exterior, tinha-se transformado para mim num local de refúgio, de abrigo, de pensamento, de apaziguamento.

A luz suspensa lembrava-me por vezes, claro que modestamente, a de uma igreja ou a de uma mesquita em que estive uma vez no Irão. Os dias passavam e eu fotografava de quando em quando, sem qualquer intenção para além do próprio acto de fotografar.

Cá dentro tudo parecia igual enquanto lá fora o mundo mudava, um amigo morria, um governo caía, um livro saía, uma guerra aniquilava, uma bomba explodia. Houve um dia em que o mundo tentou entrar, quando um empreiteiro bateu à porta e avisou de que o proprietário gostaria de trocar a janela por uma moderna com vidros grandes que deixariam entrar mais luz e menos frio e com a qual eu seria muito mais feliz.

Ainda ele falava e já eu tinha fechado a porta. Continuei a fotografar, comecei a experimentar com outros tipos de aparelho e com outros re- sultados. Cor, preto e branco, negativo, positivo, digital, película, instantâneo. Algures encontrei uma fotogra a antiga dos meus bisavós refugiados em volta de outra mesa em frente de uma janela semelhante. Também eles se tinham banhado nesta luz, porque, sim, a luz era a mesma.

Fotografando diariamente comecei a aperceber-me que, por mais que fotografasse, as imagens nunca seriam capazes de reproduzir o todo deste minúsculo espaço.

E mesmo que esse todo fosse traduzido em idênticas horas de lmagem, faltaria então o tempo para as rever, da mesma forma que Funes não tinha tempo para viver por causa da sua memória prodigiosa de um só dia apenas. Aliás, cada fotogra a traduz a realidade à sua maneira: ligeiras alterações de cor no digital, sobre exposições de luz no diapositivo, cinzentos granulosos no preto e branco e fascinantes reações químicas no instantâneo.

O próprio formato escolhido, ou a lente selecionada, o lme ou tratamento, representa cada um uma espécie de verdade diferente. Mas o ver lentamente rapidamente aparecer a imagem à minha frente, na minha mão, em vez do imediatismo do ecrã digital, provoca igualmente uma relação inteiramente diversa com o objecto fotografado, dando lugar a um contacto físico, o manuseamento do objecto fotografia, e ao erro, um eco distante dos muitos erros que eram cometidos no laboratório fotográ co quando a fotogra a ainda se assemelhava à alquimia. Outras destas imagens precisaram de ser reveladas nessa escuridão fantasmagórica que costumava acompanhar todo o processo fotográ co, mas que, tal como a beleza do erro e o desvanecimento da imagem, faz agora parte de um passado analógico.

No digital não há defeito, a repetição torna-se desnecessária, nada se perde, nada se transforma nem nada morre, porque, na realidade, não existe e é apenas luz in- formática. Não é palpável nem é táctil, a fotogra a como objecto apenas já só existe (barata) na feira da ladra ou (cara) na galeria de arte.

Fotografei mais e mais. Senti que num mundo inun- dado de imagens das mais dispersas geogra as, fazia algum sentido eu fotografar sempre no mesmo sítio
e sempre a mesma fotogra a. Mas o local escolhido revelou a sua enorme ingratidão. A tentativa não passa de uma tentativa e a minha janela é tão inesgotável como o café de Perec. Nada mexe enquanto tudo mexe.

As centenas de fotogra as apenas retratam uma ín ma parcela de tempo dentro do tempo, um fragmento microscópico sem importância num uxo constante. Uma altura chega- rá em que eu não estarei cá e algum proprietário mudará nalmente a janela. Então, sim, jorrará in nitamente uma outra luz. Alguém será talvez igualmente feliz aqui, nesse outro tempo que não é o nosso tempo.

Daniel Blaufuks, Outubro 2016


Informações úteis:vera cortes.png

Galeria Vera Cortês

Daniel Blaufuks

 

Horário:

De terça a sábado, das 14h às 19h

Fecha no mês de agosto

 

Morada:

Rua João Saraiva 16, 1º, 1700-250 Lisbon, Portugal

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