Miguel Palma, na Galeria Fonseca Macedo

A galeria Fonseca Macedo, nos Açores, apresenta a exposição Backstage of an Island: Exposição de Desenho e Escultura de Miguel Palmam patente até 28 de fevereiro de 2017.

Olhar o percurso criativo de Miguel Palma é perceber como um artista consegue delimitar um território de absoluta liberdade para nos devolver uma imagem do mundo diferenciada e complexa. Sem preconceitos e constrangimentos formais, já que indiferente aos enquadramentos disciplinares da pintura, da escultura ou da instalação, este autor circunvaga modos de fazer mediante uma abertura de espírito que única e exclusivamente se tornam eficazes se corresponderem a uma ideia ou a um propósito conceptual.

Assim, muitos dos seus trabalhos incorporam saberes outros, da mecânica à física, da manufatura artesanal à medição científica, não escondendo a integração de terceiros na concretização de projetos que deste modo se cristalizam enquanto desmistificações da marca autoral autoritária.

Recolector compulsivo de imagens e objetos de uma modernidade ainda definidora da contemporaneidade, nele cruzam-se memórias mais ou menos saudosistas de um tempo onde as utopias se desvelavam numa dimensão em que o espaço e o tempo se tornavam mais curtos: mais perto, mais rápido; e por outro lado mais acessível e mais confortável. Um mundo pré-globalização onde o universalismo ainda era um desígnio ético e político. Contudo, como testemunhámos na mais ácida das incredulidades, o reverso sombrio dessas utopias iam manchando um devir onde o ferro se contorce pelo caminho trespassando a fragilidade da carne e, fundamentalmente, do espírito humano.

Como um sismógrafo dos paradoxos existenciais contemporâneos, o seu trabalho não aponta para soluções moralizantes, antes expondo-os em situações tensivas que obrigam a uma reflexão mais complexa sobre o modo como nos situamos perante o outro e perante as mutações sociais, políticas e civilizacionais que por vezes parecem assumir direções erráticas e contrárias ao mínimo de razoabilidade expectável.

A exposição que agora se apresenta na Galeria Fonseca Macedo resulta de uma estadia que o artista manteve nos Açores, nomeadamente no programa de residências artísticas do Pico do Refúgio. Aí Miguel Palma teve a oportunidade de criar uma escultura que agora é a peça central da exposição e que se articula enquanto estrutura de relação mimética com a topografia da ilha de São Miguel. Sem qualquer tipo de preocupação verista, esta é uma peça que oscila entre a memória da história da escultura recente – numa reminiscência clara da escultura pós-minimal -, e a representação tridimensional de um qualquer pedaço de território para uso pedagógico.

As elevações provocadas no tecido que ecoam a topografia local são criadas por uma rede de elementos de sustentação assentes numa macroestrutura de madeira, artificializando toda a composição que assim se torna mais processo exposto do que resultado dissimulado.

Complementarmente, apresenta-se uma série de colagens onde mapas militares da ilha são disruptivamente assombrados por embarcações de transporte de passageiros em rotas de ameaçadora colisão/invasão. Conta-se, aqui, que um dos medos estruturais na história do Arquipélago era o dos piratas. Outro seria o do isolamento. Ou seja, de movimentos invasivos à impossibilidade de evasão, a insularidade obrigaria a um estado de espírito de alerta e tensão constantes, algo que muito provavelmente define, no fluir de gerações, um carácter muito próprio aos habitantes destes pedaços de terra que, por sua vez, na sua condição vulcânica, já de si constituem pano de fundo suficiente para uma tensão invisível e insidiosa só ultrapassável pela rotinas da existência, das mais sublimes como o amor ou o instinto de preservação, às mais banais, como os repetidos gestos do quotidiano que maquinalmente erigem um tempo sem espessura dramática.

Serão estas embarcações metáforas do confronto com o outro que inevitavelmente se vai massificar num futuro próximo? Serão as estruturas das esculturas que fazem soerguer o plano topográfico da ilha uma analogia a um deus ex machina que tal como um marionetista joga cinicamente com o destino de terceiros? Não me parece que leituras (ainda que justificáveis) tão simplistas destes trabalhos condensem verdadeiramente o espectro de complexidade que eles conseguem abarcar. Porque tal como se referiu anteriormente, no trabalho de Miguel Palma o que prevalece é a interrogação tensiva sobre o mundo. Os seus dispositivos imagéticos convocam a incerteza como paradigma da relação mais crítica que cada um de nós deve manter com o real. E esse é o destino primeiro de qualquer projeto que queira ganhar relevância elementar num mundo sobrelotado de falsas dicotomias e falsos truísmos, onde, infelizmente e como os acontecimentos recentes na política internacional o demonstram à saciedade, o pensamento plano prevalece.

Miguel von Hafe Pérez


Informações úteis:fonseca macedo.JPG

Galeria Fonseca Machado

Miguel Palma

 

Horário:

De segunda a sábado das 14h00 às 19h00

Encerrado ao Domingo e feriados

 

Morada:

Rua Guilherme Poças Falcão, 21, 9500-057 – Ponta Delgada, São Miguel – Açores

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