A visita à Conversa Inacabada da Coleção Berardo

Seis artistas interdisciplinares foram convidados ao Museu Coleção Berardo para descodificar eventos sociopolíticos e desafiar os visitantes a construir novas leituras do passado. O Estado da Arte não faltou. Aqui fica uma ideia e o sentimento que se traz da exposição.

A conversa inacabada dos curadores Gaëtane Verna e Mark Sealy juntou seis artistas cuja linha comum dos seus trabalhos envolve manifestações sobre acontecimentos sociopolíticos recentes.

Terry Adkins, John Akomfrah, Sven Augustijnen, Steve McQueen, Shelagh Keeley e Zineb Sedira foram convidados a construir novas leituras do passado para que o público possa criar múltiplas perspetivas e alternativas para a compreensão de momentos que não só marcaram a história como também moldaram identidades e a cultura de hoje.

Antes de entrar na exposição há que refletir sobre a cadeia dos eventos, as consequências da comunicação social sobre a consciência social e moldura da contemporaneidade.

Quando há um acontecimento que marca uma geração – seja uma morte, uma lei, por vezes até uma música ou uma manifestação -, a forma como este é perpetuado no tempo (presente e futuro) vai decidir a perceção de toda uma população (seja ela qual for). Começa pela entoação com que é passado, distribuído e espalhado, a entoação de uma notícia é como a banda sonora de um filme, vai decidir se estamos a ver uma cena romântica ou de profundo terror. A entoação da notícia, por mais objetividade jornalística que exista, vai só por si criar ondas e consequências. Mais ainda se torna importante, hoje em dia, com a facilidade e exposição individual da distribuição da notícia/acontecimento. Cada um reage de acordo à sua emoção e partilha. A entoação, contexto, distorção, e desconstrução, em grande parte, decidem a importância e o futuro dos acontecimentos e a sua relevância futura na construção individual.

Assim se entende a importância das perspetivas alternativas, de quem está dentro e de quem está fora, de quem só viu de perto, ou sentiu na pele os efeitos de certa situação. A Conversa Inacabada, deu uma oportunidade ao músico, cineasta, escritor, historiador, etc. de criar contexto, intensificar situações e dar ao público um desafio de reflexão sobre a importância dos acontecimentos e da sua perspetiva na sociedade.

“A premissa por detrás da curadoria desta exposição está enraizada no trabalho de Stuart Hall (1932-2014), investigador em Estudos Culturais, que dedicou a sua vida ao estudo dos entretecedores fios da cultura, poder, política e história.” pode ler-se o texto completo aqui.

Curadoria:

Gaëtane Verna (diretora, The Power Plant)

Mark Sealy (diretor, Autograph ABP).


Folha de Sala

John Akomfrah

Britânico, nascido em Acra, Gana, 1957

Vive e trabalha em Londres

The Unfinished Conversation, 2012

Instalação em três ecrans, vídeo HD cor, com, 45 min.

Coleção Tate: adquirido em parceria com Tate e British Council, 2013.

Cortesia do artista; Smoking Dogs Films; e Caroll/Fletcher, Londres.

Uma encomenda Autograph ABP.

***

Nesta instalação de múltiplas camadas, o artista, cineasta e escritor John Akomfrah investiga a identidade, não como essência ou paradigma, mas antes como um devir, um produto da história e da memória, Akomfrah explora o arquivo pessoal do aclamado teórico cultural jamaicano Stuart Hall (1932-2014), para quem identidade e etnia não são conceitos estáticos, antes objeto de uma conversa permanentemente inacabada. Desdobrando o discurso em três projeções, Hall exorta ao inteligir de uma identidade pessoal e política.

Chegado à Grã-Bretanha, oriundo da Jamaica como bolseiro Rhodes em 1951, em 1968 consolida-se como uma das figuras fundadoras da Nova Esquerda. Akomfrah problematiza as questões de identidade cultural, fazendo uso de uma miríade de referências no entrecruzar de materiais de áudio e vídeo do arquivo de Hall, convocando referências a William Blake, Charles Dickens, Virginia Woolf, Mervyn Peake, Jazz e Gospel, justapostos a imagens de imprensa das décadas de 1960 e 1970.

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Steve McQueen

Britânico, nascido em Londres, Reino Unido, 1969

Vive e trabalha em Londres e Amesterdão

End Credits, 2012

Sequência de documentos digitalizados, áudio, 322 min.

Cortesia do artista; Marian Goodman, Nova Iorque e Paris; e Thomas Dane Gallery, Londres.

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End Credits é dedicado ao cantor, ator e ativista afro-americano Paul Robeson (1898-1976). Milhares de páginas do arquivo de Robeson, compilado pelo FBI durante anos de vigilância promovida pelo governo McCarthy – outrora ferozmente censurados e agora acessíveis ao público – são exibidas como documentos e também lidas em voz alta. McQueen presta homenagem aos ativistas pelos direitos cívicos sob a forma de créditos finais, denunciando a natureza devastadora da discriminação, marginalização e perseguição motivadas por uma agenda política.

Ator de sucesso e estrela de cinema da década de 1940, a tomada de partido de Robeson pelas forças republicanas durante a Guerra Civil Espanhola, a sua luta global pelos direitos dos trabalhadores, uma viagem à União Soviética, e a sua posição pró-pacifista e contra o despotismo fizeram dele uma das figuras mais celebradas internacionalmente no seio do movimento Afro-Americano pelos Direitos Cívicos. Consequentemente, foi igualmente considerado uma séria ameaça aos olhos das políticas anti-comunistas paranóicas da era da Guerra Fria. Figurou na lista negra no auge da sua carreira, no início dos anos cinquenta, tendo o Departamento de Estado dos Estados Unidos recusado emitir-lhe um passaporte, impedindo-o assim de atuar e intervir publicamente no estrangeiro, até uma decisão do Supremo Tribunal ter restituído o seu direito a viajar em 1958.


Shelagh Keeley

Canadiana-norte americana, nascida em Oakville, Ontario, 1954

Vive e trabalha em Toronto

1983 Kisangani, Zaïre, 2015

27 fotografias na parede

Cortesia da artista.

Encomendado por The Power Plant, 2016

***

Esta encomenda site-specific para o clerestório da galeria The Power Plant é composta por uma série de fotografias tiradas em 1983 em Kisangani (ex-Stanleyville), Zaire.

O trabalho de Keeley, que evoca uma banda de película, confronta o anterior trabalho de mural da artista, intitulado Notes on Obsolescence (2014). Keeley fotografou as imagens de forma encoberta, por ser ilegal fotografar durante a presidência de Mobutu Sese Seko (1930-1997), e agora, trinta e dois anos depois, estas permanecem documentos marcantes, retratando a arquitetura modernista belga totalmente arrasada em sucessivos conflitos posteriores, na República Democrática do Congo. Mas a história repete-se – a riqueza mineral da região, principalmente diamantes e coltan, este último muito procurado para microchips e outros elementos eletrónicos – continua a motivar conflitos.

Para Kelley, estas vistas internas e externas de arquitetura modernista tardia e fracassada – marcada pela corrupção, clima de guerra e instabilidade política, e ainda assombrada por vestígios do colonialismo – são delicados documentos pessoais, que contrastam com as imagens de reportagem, oriundas do mesmo lugar, que circulam na imprensa contemporânea.

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Shelagh Keeley // Coleção Berardo 2016 // Créditos fotográficos de Aléxia Costa

 


Zineb Sedira

Franco-argelina, nascida em Paris, França, 1963

Vive em Londres e trabalha em Londres, Paris e Argel.

Gardiennes d’Images, 2010

19 min. em projeção dupla, 30 min. em projeção mono-canal

Cortesia do artista; Galerie Kamel Mennour, Paris; e The Line, Dubai.

***

Em Gardiennes D’Images Sedira foca as questões da história oral, transmissão, língua, mobilidade, bem como a referenciação da tradição e do isolamento.

Mohamend Kouaci (1922-1996), muitas vezes referido como o pai da fotografia argelina, foi o principal fotógrafo a registar a Guerra da Independência Argelina )1954-1962), a consequente independência da França em 1962, e o seu resccaldo para o primeiro governo de uma Argélia independente. Kouaci fotografou para o El Moudjahid, o jornal oficial da FLN (Frente de Libertação Nacional), e foi protagonista durante a revolução, num momento em que as imagens do país iam sendo rigorosamente controladas.

Combinando o documentário e a instalação, Sedira apresenta uma proposta para a valorização e difusão do trabalho de Kouaci, espólio que contempla imagens de figuras notáveis como Ahmed Ben Bella, Abdelaziz Bouteflika, Fidel Castro, Patrice Lumumba, Che Guevara e Frantz Fanon. A história é amiúde narrada do ponto de vista dos seus ex-líderes; com este trabalho Sedira dá voz a uma cidadã comum por via de Safia Kouaci, convocando a suas memórias de eventos-chave da história que se confundem com histórias do seu quotidiano com o seu marido.


Sven Augustijnen

Belga, nascido em Mechelen, Bélgica, 1970

Vive e trabalha em Bruxelas

Spectres, 2011

Filme HD, cor, som estéreo, 104 min.

Cortesia do artista e Jan Mot, Bruxelas e Cidade do México

***

O ensaio documental de Sven Augustijnen convoca um dos capítulos mais sombrios da descolonização do Congo Belga: o assassinato de Patrice Lumumba (1925-1961), o primeiro-ministro democraticamente eleito do Congo.

A narrativa central de Spectres assume a forma d euma viagem, com Jacques Brassinne de La Buissière, um ex-funcionário público de relevo, a servir de guia através dos diversos locais históricos cruciais e de momentos simbólicos da política e do <<enredo>> humanitário despoletado pela descolonização, a transferência de poder e os conflitos subsequentes, incluindo o encarceramento e execução de Lumumba, juntamente com dois outros ministros do seu governo, em 1961. Narrador mas também personagem simbólica, Brassinne partilha os argumentos por si confrontados no âmbito de reuniões e comemorações com os últimos sobreviventes, todos eles testemunhas ou familiares dos principais protagonistas. O processo do filme converte-se num exorcismo dos espíritos que vão emergindo por entre as pregas das estórias e suas retificações.


Terry Adkins

1953, Washington DC – 2014, Brooklyn NY,

Estados Unidos da América

Flumen Orationis (From the Principalities), 2012

Vídeo, 41 min.

Património de Terry Adkins.

Cortesia de Salon 94, Nova Iorque

***

Artista Interdisciplinar e músico, Terry Adkins aborda o seu trabalho em artes visuais a partir do ponto de vista de um compositor, apresentando os seus trabalhos de escultura, performance, video, e fotografia como se de recitais se tratassem.

Adkins homenageou, em diversas circunstâncias, figuras da história afro-americana, entre eles o abolocionista John Brown e músicos como Bessie Smith e John Coltrane. Flumen Orationis (From the Principalities) combina o registo de uma gravação do discurso do Reverendo Dr. Martin Luther King Jr. Porque me oponho à guerra do Vietnam (1967), com a música do guitarrista, cantor e compositor afro-americano Jimi Hendrix. Ambas são reproduzidas sobre fotografias preto-e-branco, respigadas, que evocam balões de ar quente e outros dirigíveis outrora destinados ao transporte de passageiros e, acima de tudo, a fins militares.

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