Recordando, na Galeria Graça Brandão

Na Galeria Graça Brandão, em Lisboa, até 30 de dezembro de 2016, estará patente a exposição em memória a Ana Vieira, José Rodrigues e Z. L. Darocha.

Este ano abandonaram-me (nos) três artistas que, de uma maneira ou de outra, farão sempre parte da minha vida.

*

Em 1980, quando depois das “aventuras” provocadas pelo 25 de Abril, era secretário da companhia do TEP – Teatro Experimental do Porto, encontrei o José Rodrigues, na Praça D. João I. Perguntei-lhe se me arranjava um trabalho da parte da manhã. No Teatro trabalhava à tarde e à noite e trabalhar de noite era muito complicado para mim. O criador se quisesse que eu vivesse de noite ter-me-ia colocado olhos de gato ou de lince.

“Vai à Árvore e fala com o Henrique Silva”

E eu fui.

E assim, mais uma vez na minha vida, escancarou-se uma porta que, desta vez, me permitiu entrar no mundo das Artes Plásticas.

Nessa altura as pessoas não se isolavam tanto nos seus casulos profissionais, nos seus solitários face books e em amigos virtuais, como agora acontece. Os artistas plásticos, os músicos, os escritores, as pessoas de teatro, conviviam muito e trabalhavam em conjunto. A minha passagem pelo Teatro Experimental do Porto mostrou-me isso mesmo e foi muito enriquecedora.

O José Rodrigues integrou o chamado Grupo dos Quatro Vintes formado por ele, pelo Armando Alves, pelo Ângelo de Sousa e pelo Jorge Pinheiro. Quatro vintes, porque foi essa a classificação no curso de Belas Artes.

Na minha passagem pelo TEP e pela Árvore o José Rodrigues esteve sempre presente e sempre generoso.

Não podemos esquecer que o José Rodrigues foi autor de mais de 50 espaços cénicos sendo de destacar o cenário de “A Casa de Bernarda Alba” de Federico Garcia Lorca no TEP, dirigida por Ángel Facio. O extraordinário cartaz que criou foi alvo de missas de desagravo ao Sagrado Coração de Jesus na Igreja do Carvalhido, e bandos de beatas do Movimento Nacional Feminino, de escada em punho, percorreram as ruas do Porto arrancando-os. E tudo isto em 1972.

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Z.L. Darocha andou comigo na escola em Oliveira de Azeméis. Era uns meses mais velho do que eu, e andava adiantado uma classe o que lhe dava o estatuto de líder.

Vivemos juntos imensas aventuras, algumas deixaram cicatrizes que ainda decoram o meu corpo.

Quando a família saiu de Oliveira perdi o contato diário com o Zé Luís. Anos depois, encontrei-o na cervejaria Ribadouro em Lisboa, pouco tempo antes de ter partido para Paris.

Com o 25 de Abril um novo horizonte se abriu e as vindas a Portugal passaram a ser frequentes. Chegou mesmo a Integrar a “Alternativa Zero”, expondo com frequência em França e em Portugal.

O meu contacto com ele, com a mulher, com os filhos e agora com os netos, foi acontecendo, sempre com muito afeto.

A última vez que estive com o ele foi há poucos meses. O Filipe disse que ele tinha com simpatia falado de mim e eu fui a Paris encontrar-me com ele. Estava deitado numa cama no hospital mas não perdera aquele olhar que tinha, um olhar de quem continuava a tudo e a todos a desafiar.

Assinou os seus trabalhos como Darocha, da Rocha, Luis Darocha, Z. L. Darocha, Louis Darocha ou Paris Couto. Para mim foi sempre e continua a ser o Z.L. Darocha

***

Ana Vieira foi a minha última paixão no mundo da Arte.

Como alguém disse, foi verdadeiramente uma aristocrata da arte. Tinha aquela auréola que o criador coloca a alguns artistas e que só os privilegiados a conseguem ver.

A Ana foi uma Artista sempre jovem, criadora de uma obra permanentemente atual e que infelizmente o país, na sua mesquinhez, nunca a soube reconhecer como ela tanto merecia.

A Ana sabia que só trabalho com jovens artistas, aqueles que nunca se deixam deslumbrar com facilidades momentâneas, e que ficaram sempre jovens. A sua obra nunca perdeu essa frescura que só a juventude de uma cabeça sem teias de aranha permite.

***

Desfolhando agora o catalogo da “Alternativa Zero – Tendências polémicas na arte portuguesa contemporânea – Lisboa 1977”,verifico que o Zé Rodrigues, a Ana e o Zé Luís participaram os três nessa Exposição.

José Mário Brandão, Outubro de 2016

Quero agradecer o apoio que deram para a realização desta exposição. À Paula e ao Miguel, filhos da Ana Vieira, à família do Zé Rodrigues, especialmente à Ágata, ao Alfredo Vieira, á família do Zé Luís, á Isabel Alves e ao Albuquerque Mendes.


Informações úteis: graca brandao

Galeria Graça Brandão

 

Horário:

De Terça a Sábado, entre as 11h e as 19h

 

Morada:

Rua dos Caetanos, 26 A, 1200-079 Lisboa

 

Transportes:

Metro de Lisboa: estação Baixa-Chiado

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