A visita às Musas Inspiradoras

O que te inspira? Pergunta a curadora Emilia Ferreira aos 9 artistas que convidou a expor na Casa da Cerca. A ideia é a de combinar os seus talentos com as 9 musas vindas da mitologia grega: poesia, comédia, dança, geometria, eloquência, tragédia, história, acústica e astronomia.

A curadora pede aos artistas (e aos espectadores) para refletirem sobre o que os inspira, dando ao espectador a oportunidade de perceber uma parte do processo de trabalho do artista, e daí gerar o ponto de partida para outras discussões.

Inspiração: o movimento pelo qual se leva o ar aos pulmões; riqueza de imaginação. A inspiração é sinónimo de entusiasmo, de movimento, de renovação, porque sem inspiração não se criam coisas novas, sem inspiração não existe vontade de continuar a embalar no movimento que trazemos de trás.

A inspiração traz impulso, traz novo ar aos pulmões, renova as células e as gentes, os olhares. Mas, se existem alturas em que a inspiração nos chega sem esperarmos, de repente e sem avisar, existem outras alturas que sem transpiração não existe inspiração, existem alturas em que não chega sentar num banco de jardim à espera que o raio encontre aquela árvore ao nosso lado, há-que levantar e puxar por ela.

Um termo com diferentes fins e inúmeros meios, e cada um de nós sente a inspiração de uma forma única.

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A exposição começa com a a instalação de Ana Rito. A esta artista, atualmente com especialidade em instalação-video em torno da performatividade da imagem movente, foi proposta a musa da dança, Terpsicore.

Dança, a construção do movimento no espaço no qual se incorporam o ritmo, o tempo e a expressão corporal. Tema em que a artista pegou e dele fez o que nos seus temas já nos habituamos a ver: poesia com a imagem do corpo e o teatralizar do quotidiano.

Ana Rito apresenta um video onde a ideia parte “do corpo dançante e movente”, como ela mesma comenta. O video com 13 minutos atinge o climax com a imagem do corpo estátua “mais escultura e pedra do que carne”, num momento que difere do resto das imagens estáticas que mostram uma porta e um corredor  – representantes também de movimento -, o corpo dançante move os braços lentamente trazendo o significado ao tema da artista, dança, silêncio e repetição, o quase nada.

 

Parto para um novo trabalho como quem parte em busca de um “outro”, uma superfície, um ecrã, um reflexo que se transmuta em corpo. Todos os meus trabalhos se iniciam com uma performance, e mais concretamente com uma performance para a câmara.

Mais sobre Ana Rito:

Museu Nacional de História Natural e da Ciência

Arte Capital

Carpe Diem Arte e Pesquisa


 

Ao cimo da escada somos recebidos pela cor, contrastes e pequenos desfoques das obras de Pires Vieira.

Diz o artista que “a paisagem será qualquer coisa de organizada que precisa de organização. Pegamos em alguma coisa que é aparentemente natural e espontânea e encaixamo-la num conjunto de conceitos.”

O artista já tem vindo a ser inspirado pela musa da geometria à várias décadas e para a Casa da Cerca trouxe as já típicas cores vivas, a junção das paisagens e a criação geométrica que é a natureza em manchas de texturas que sem dúvida que nos fazem lembrar o lendário e intemporal Monet. Polímnia, foi a musa inspiradora de Pires Vieira.

 

 

Pires Vieira 7

Há sempre um precedente a todo o acto de consciência, e o seu conhecimento, a sua história, preside e acompanha toda a ação inspiradora do autor. Depois, o confronto, como acto de resistência àquilo que se conhece, quase como um desafio que se estabelece, entre o que existe e o que novo se pretende acrescentar.

 

Mais sobre Pires Vieira:

Pires Vieira

Publico

Arte Capital


 

A meio da sala estão as representações de Rogério Ribeiro, o primeiro diretor da Casa da Cerca, a quem foi atribuida a musa da tragédia – Melpómene. Este foi um autor que sempre gostou de trabalhar a mitologia clássica e para o efeito foram escolhidas peças pictoricas relacionadas com a morte, com a revolução francesa e com os pintores que o inspiraram ao longo da sua vida.

Num ambiente sombrio é apresentada a obra de 1990, “A arma assassina”, uma faca pousada sozinha em toda a pintura. O segundo óleo na mesma parede representa a morte, um corpo pousado num ambiente frio coberto com um lençol. Do outro lado da sala foram escolhidas ilustrações feitas a tinta-da-china, uma espécie de humano com asas que parece não saber voar. Talvez seja um estender do tema em que, assim como a musa da tragédia que, segundo a mitologia, apesar de te ter tudo para ser feliz, não o era.

 

 

Escrever sobre o que é de “ver” obriga-nos a outro aparo, a ordenar de outro modo a atitude de pensar, a desenhar rabiscos curtos e caprichosos que quanto tentam desmontar as imagens chamam a si o seu próprio gosto de significar.

 

Mais sobre Rogério Ribeiro:

Arte Capital

Câmara Municipal de Almada


 

Ao continuarmos pelo corredor vamos cada vez mais entrando num registo monocromático. Rogério Ribeiro num tom mais clássico apresentou obras mais sombrias mas é a musa da história que inspira Hugo Barata. O artista apresenta diversidade de materiais e abordagens aos temas, com um oléo sobre linho do lado direito – “The Reference (another small fire)” de 2015, e uma pequena imagem a preto e branco quase no chão da exposição. Do lado esquerdo, uma imagem do mar sem cor sobreposta por uma tela, fotografias Polaroid e um video com o texto original de Luz de Cima. A sua musa é Clio, e aqui o artista “fala”, através do seu trabalho, de si mesmo, do seu processo, a história onde junta os fragmentos que o trouxeram até aqui.

 

 

Resume-se tudo a observar os pequenos nadas; a minha forma de trabalhar não obedece a uma regra ou plano, acontece mesmo ser extremamente caótica, repleta de rituais; penso numa conversa ou num livro, penso num corpo ou num quadro; diferentes fontes; meditação – ação – meditação.

 

Mais sobre Hugo Barata:

Balaclava Noir

Kairos


 

Ana Vidigal traz um contraste diferente à sala, sem telas. A artista apresenta o seu trabalho numa instalação com livros que considera de baixa leitura e expõe-os trabalhados, como ela mesma refere, mais do que inspiração, existe o prazer e a vontade de trabalhar, assim, a artista expõe o seu tempo e relata o tempo que gasta nos trabalhos que faz. Os seus temas andam em volta dos danos emocionais, e o seu estilo passa muitas vezes pelo que podemos ver na Casa da Cerca, a manipulação de objetos do dia-a-dia que permitem passar uma mensagem ao mundo.

A instalação inclui um livro aberto, em tom de estar a ser lido, claramente usado, repleto de clips e elásticos. Do lado oposto da janela estão vários livros amontoados enrolados em cordas, estrangulados. A sua musa é Erato, a musa da poesia lírica.

 

 

Intercalar Clarice Lispector com William Hanna e Joseph Barbera, Emily Dickinson com Blake & Mortimer de Edgar P. Jacobs sem nunca esquecer Corín Tellado, Ana Cristina César, Kavafis, Umar- I Khayyãm, Manuel de Barros e Twin Peaks, India Song da Duras e

 

Mais sobre Ana Vidigal:

Ana Vidigal

Arte Capital

Publico

Baginski

Jugular


 

Para Pedro Proença o riso é a sua musa inspiradora, e por consequência a coisa mais importante da vida. Como ele mesmo diz, é como se a musa Thalia – o riso – lhe sussurra-se as ideias ao ouvido.

Estudioso da cultura grega, procura a multiplicidade e complexidade das expressões e gosta de explorar as pequenas coisas da pintura. Pedro Proença gosta de usar os materiais como metáforas das suas ideias e considera que o papel das artes é uma forma de fazer abrir os sentidos e levar à libertação que nos põe em contacto com o maravilhoso e absoluto.

A ocupar o final deste corredor, está o seu desenho repleto de pormenores que parecem contar pequenas histórias hilariantes. Um misturar de temas, de coisas, de objetos e de sentidos com um pequeno toque que faz lembrar alguns surrealistas da arte moderna.

 

Minha querida Thalia. Contigo o riso retornou o curso normal na minha vida. Tudo o que era problemático sorri. Por isso, ó Thalia, faz-me florir, é grande florescedora, ó mais primaveril e campestre de todas as musas.

 

Mais sobre Pedro Proença:

Miguel Nabinho

Pedro Proenca Exhibition – “impromptus”

Artistas Unidos

Entre Vistas


 

São os céus que entusiasmam Marta Wengorovious, e para esta exposição a artista escolheu um ponto de viragem do seu processo criativo onde a inspiração parte do seu quotidiano.

Ao entrar na sala inspirada pela musa da astronomia, o azul profundo puxa-nos os olhos para as paredes, quase como num jogo de descobrir as diferenças e nuances dos céus da artista. No centro, em modo de círculo, estão fotografias em tons de azul a representar o quotidiano e as pessoas que dão vida à obra da artista.

 

 

Propunha-me então a pintar o que estas pessoas podiam ser enquanto céu, enquanto infinito. Foi esta a proposta que fiz a mim própria e às nova pessoas escolhidas: vê-las para lá do rosto, para lá dos olhos.

 

Mais sobre Marta Wengorovius:

Marta Wengorovius

Dezeen


 

Para Daniela Krtsch foi escolhia Calíope, a musa da poesia e arte de bem falar, que é representada pela pintura clássica da artista. Uma musa escolhida pela expressividade das obras de Daniela, o seu jeito de pintar as mãos que só por elas parecem conversar conosco, dão direção ao olhar, prendem e confesso que me chegam a hipnotizar.

 

 

A minha musa seria a Calíope, figura grega mítica e musa da poesia, ciência e eloquência, muitas vezes retratada com um papiro. Achei que seria interessante juntar esses dois elementos – o da figura da musa e do papel como material onde o acto criativo se regista.

 

Mais sobre Daniela Krtsch:

Daniela Krtsch

Galeria 3+1

Carpe Diem Arte e Pesquisa


 

Este é o artista que destaco nesta exposição, ao entrar na sala que partilhou com Daniela Krtsch, basta por o pé lá dentro para a sua instalação nos encontrar o movimento e fazer as cordas vibrar. O som é simplesmente fabuloso, não esperem uma melodia, é o puxar da máquina e o vibrar das cordas, que sobem alto o suficiente para me torcer o pescoço, que parece que nos despedaçam em bocados relaxantes, como se nós próprios nos dissipássemos pela sala.

Simão Costa, um estudioso das interações entre som, imagem e luz, trabalha a arte digital privilegiando o cruzamento entre a ciência, arte e tecnologia culminando numa informática musical. A sua musa é Euterpe.

 

 

A sua musa é Euterpe, a musa da acústica, do fenómeno sonoro no seu todo. A sua instalação, um projeto audiovisual, é o meio caminho do que se ouve e se consegue ver, o que é silêncio para os olhos e o que não o é.

 

Mais sobre Simão Costa:

Centro de Investigação & Informação da Música Portuguesa

Simão Costa

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